A Mariana, o Bruce e o João têm vontade de criar. Querem dizer coisas, sejam elas quais forem, doam elas a quem doer. Querem mostrar que a imagem que se faz das novas gerações - seres acríticos, agarrados ao Facebook e aos jogos de consola - não passa de um lugar comum igual a outro qualquer. A Mariana, o Bruce e o João querem aparecer, mostrar o que valem e se nada valerem hão-de apagar-se, quererão apagar-se por si só. A Mariana, o João e o Bruce não querem dinheiro. Não querem que as câmaras ou os governos que lhes paguem as fotografias, a música, o teatro, a dança, a poesia, a pintura. A Mariana, o Bruce e o João querem espaço(s) para mostrar aquilo que valem, longe da cultura institucionalizada dos festivais, dos grandes eventos, das peças que todos pagam e que poucos vêem, dos livros que todos pensamos serem importantes ou da sacra música dos órgãos recuperados. Não precisam de salas grandes, com camarins e fosso de orquestra e extraordinárias equipas de produção. A Mariana, o Bruce e o João só gostavam que a cidade comportasse pequenas salas, pequenos espaços ao alcance de qualquer mão onde se pudessem montar espectáculos amadores, exposições, acontecimentos culturais para pouca gente ou que fujam ao mainstream. Gostavam de ver um centro cultural verdadeiro onde da partilha de saberes e experiências resultasse qualquer coisa, boa ou má, o futuro que o decida! Gostavam que a pirâmide cultural não estivesse invertida e que da base se partisse até ao topo. Gostavam, por exemplo, que a poncha não corresse num espaço da zona velha onde até há pouco tempo se comemorou. Gostavam, enfim, de não ter de partir, como muitos outros antes deles. A Mariana, o Bruce e o João são apenas exemplos, quase tipos-ideais weberianos de uma geração criativa que quer espaço(s) para mostrar qualquer coisa. Quanto ao resto, eles desenrascam-se.
Gonçalo Santos, Gestor de Projectos