Padre Rafael Andrade Tenho neste momento entre mãos um livro que me foi enviado dos EUA por pessoa amiga. O título é "Resilience"
Diz o dicionário de língua portuguesa que este termo resiliência, derivado do latim, significa exactamente o contrário de fragilidade ou fraqueza. Quer dizer energia ou força interior inata a qualquer ser humano.
É esta publicação da autoria da recentemente falecida Elizabeth Edwards, esposa de um conhecido ex-candidato à presidência daquele importante país. A escritora, conforme o seu próprio testemunho,soube encontrar, numa grave e fatal enfermidade, meios próprios para enfrentar com serenidade e determinação os gravíssimos males de que estava plenamente consciente.
Julgo que de uma forma ou outra somos todos confrontados com situações mais ou menos idênticas. No meu caso são a saúde e idade e as consequentes, normais e inevitáveis limitações. Apesar disso, tudo bem.É a lei da vida.
Em 1998, depois de décadas de ensino, ocorreu a minha aposentação da escola pública e privada. E há três meses foi a dispensa, a meu pedido, do serviço paroquial.
Não posso nem devo esconder o impacto que estes eventos tiveram no meu dia a dia.
Tenho conversado com reformados de várias profissões que, na maioria dos casos, embora aparentemente libertos dos habituais compromissos, não deixam de reconhecer as consequências inevitáveis e profundas na mudança do estilo de vida. A isto alguns chamam saudosismo. Eu prefiro dizer que se trata de reacção absolutamente correcta e normal no indivíduo e sociedade.
Conheço países onde existem médicos especificamente preparados para prestar apoio ou assistência aos reformados. Por isso compreendo que possa existir uma certa relutância da parte de muitos que estiveram ou estão envolvidos no mundo da política, negócios ou outras actividades afins, em desistirem dos cargos que desempenham, com receio da inactividade ou de serem votados ao abandono ou esquecimento, para não dizer ostracismo.
Convivi com colegas - entre os quais o meu imediato antecessor-- muito mais velhos do que eu, em ambiente fraterno de mútua alegria, respeito, partilha e amizade. Não me arrependi. A filosofia actual, porém, é muito diferente.
Desconheço as convicções religiosas da autora do livro acima referido. Todavia julgo poder concluir que pela citação frequente da Bíblia, pelo apelo à oração, teria fé e confiança na Palavra de Deus. Devemos, segundo ela nos refere, procurar em nós próprios e nas convicções que em nós existem a força interior para enfrentar as crises que nos aguardam.
Não há muito que confiar em mudanças. Somos em alguns casos (felizmente não muito frequentes), olhados com medo e desconfiança, de soslaio, estrabicamente, como tropeço. Por isso mesmo, pressinto ser mais aconselhável, bater com a porta.
Que bom seria se a desconfiança e despeito fossem estripados do nosso convívio quotidiano. Todavia Isso não acontecerá certamente. Assim sendo, teremos de coabitar com este contexto. A minha experiência de "ups and downs" dita-me que não há alternativa. Também a isso já estou feito.
Daí concordar com Elizabeth Edwards. Porque, como normalmente sucede, ninguém virá em nosso auxílio,somos mesmo, forçados a redescobrir a energia interior que em cada um de nós existe--a resiliência