Nunca uma campanha eleitoral para a Presidência da República retratou, de forma tão clara, aquelas que são as contradições mais profundas da nossa democracia. Os candidatos apoiados pelos partidos que se têm alternado no poder, PS e PSD, têm usado de uma argumentação e de um registo no discurso onde domina o branqueamento das responsabilidades políticas individuais e partidárias que lhes devem ser pedidas. Perante a ausência de uma discussão alargada e sobretudo face à expressão totalitarista de um "pensamento único", imposto pelos "fazedores de opinião" dos grandes órgãos de comunicação social, os dois candidatos têm esgrimido acusações que revelam o mais descarado oportunismo político. Usar deste tipo de discurso, enquanto se avançam com as medidas injustas do ponto de vista social que põem fim àquelas que foram durante as últimas três décadas, as poucas garantias de protecção dos cidadãos, é desrespeitar despudoradamente os portugueses em nome do poder pelo poder. Insistir na utilização abusiva de um discurso fértil em demagogia, quando se conduziu e conduz o país para a consolidação de um modelo de subdesenvolvimento económico é dar conta do propósito comum aos dois candidatos e que está muito longe de cumprir o papel definido para o Presidente da República pela Constituição da República, é só manter o poder. A cada um de nós, na diversidade de opiniões e projectos que defendemos, é necessário e urgente, responsavelmente, exigir coragem para uma mudança a favor da coesão e desenvolvimento de Portugal. Sem isso, continuaremos a ser subalternos ao serviço de interesses sem pátria e ficará por cumprir o papel do Presidente da República.
Isabel Cardoso, Professora