No meu primeiro ano de faculdade, pouco depois de me mudar de armas e bagagens para Lisboa, percebi que a Madeira está envolta numa densa nuvem de ignorância para a maior parte das pessoas que nasceram e vivem no território continental.

Da Região, os meus colegas de curso, todos eles considerando-se pessoas minimamente informadas, sabiam o nome do presidente do Governo, falavam das bananas e da praia do Porto Santo. De resto, havia uma enorme confusão e se, em tom de brincadeira, os alunos madeirenses diziam com ar convicto que quando a maré estava baixa até podíamos fazer o trajecto entre a Madeira e Porto Santo, de carro ou bicicleta, alguns ainda pensavam duas vezes antes de decidir que se tratava realmente de uma brincadeira.

15 anos depois e apesar das notícias que hoje navegam à velocidade da Internet e das redes sociais, a ignorância sobre como se vive na Madeira ainda impera em muitos meios de Portugal continental.

E isso é mesmo fácil de comprovar quando o Ministério da Administração Interna (MAI) continua a negar a criação de uma esquadra na Camacha porque, segundo explicaram os responsáveis, o número de participações ou queixas naquela localidade não justifica o maior policiamento na zona.

A notícia deixou todos e principalmente quem vive ou quem tem amigos e familiares na Camacha verdadeiramente perplexos. A criminalidade na freguesia está à vista e, basta passar algumas horas no local e perder algum tempo a contactar com os habitantes para perceber que os assaltos, o medo e a insegurança não são uma excepção, mas uma regra.

Foi por isso que as reacções à decisão do MAI não se fizeram esperar. Choveram comentários no portal do DIÁRIO, a maioria pouco abonatórios da decisão governamental. Mas alguns chamaram a atenção para uma situação real e que ultrapassa em muito a questão da criminalidade na Camacha. Afinal, o que sabe o Ministério, o da Administração Interna ou outro qualquer, da realidade nas freguesias da Madeira?

É certo que Portugal é um país com quase 11 milhões de habitantes e é impossível ter conhecimento de tudo, mas num caso como estes, em que se decide sobre as condições de segurança de uma população, é demasiado redutor e injusto (como é o caso), tomar decisões com base em estatísticas frias e relatos à distância. Porque, quem vive na Camacha ou quem conhece um pouco sobre a situação real que lá se vive, sabe que as participações ou queixas à polícia são poucas, porque, para as fazer as pessoas têm de se deslocar ao posto do Bairro da Nogueira. Porque, quem vive na Camacha ou em qualquer outra freguesia da Madeira, sabe que num meio pequeno, em que todos se conhecem minimamente, os riscos de retaliação são superiores ao que é normal numa grande cidade.

A Madeira, tal como as outras regiões do país, como o Algarve e o Alentejo, como o Norte e o Centro, tem as suas especificidades, as suas características, as suas necessidades, que são sempre próprias e diferentes das outras. E as decisões tomadas não devem ter por base suposições, ideias ou palavras escritas num papel.

Qualquer decisão deve ser tomada, pelo menos idealmente, com conhecimento de causa, para que ninguém saia prejudicado.

Porém, a verdade é que quando uma expressão como ‘Já chegamos à Madeira?’ continua a passar de boca em boca, de geração em geração, para ser utilizada quando alguém se quer insurgir contra algum tipo de comportamento inadequado e desrespeitador, só comprova o preconceito que existe, persiste e que temos de continuar a viver.