A semana passada estive a reler "O Retrato de Dorian Gray", um livro que me tinha marcado da primeira vez que o li, quando tinha 15 anos. Foi com Wilde que descobri a relevância da beleza e a importância da Arte. Tal como aconteceu com Dorian, as palavras de um dos seus amigos marcou-me: "Cure a alma com os sentidos e os sentidos com a alma". Arrebatado pelo livro, também quis ser um criador de beleza. Mas a arte é muito mais do que a criação de coisas belas. Wilde dizia na introdução do livro que "toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo". Mas é muito mais do que isso! Actualmente, tudo o que nos rodeia tenta ser cada vez mais elegante, mais belo e mais simples: desde o design dos automóveis às interfaces dos nossos computadores e telemóveis. Damos cada vez mais importância à beleza a todos os níveis. E assim, a teoria da "Arte pela Arte" faz pouco sentido, porque o impacto da Arte deve ser superior. Assim, o livro deixou-me insatisfeito nesta segunda leitura, 20 anos depois. Não posso colocar os trabalhos "ready made" de Duchamp no mesmo saco que as pinturas de Francis Bacon, de Caravaggio ou os desenhos de Leonardo da Vinci ou Jack Kirby. O livro continua brilhante, mas o impacto da sua mensagem é diferente agora, parece incompleta e parece ser dominada pelo hedonismo. Ironicamente, este livro continua a ser uma obra de arte genial que transcende a beleza. Posso não concordar com a sua mensagem agora, mas foi certamente lido na altura certa da primeira vez.

Roberto Macedo Alves, Desenhador de BD