Sentimentos, emoções e imediatismo fazem parte da religiosidade. Mas… O que será isso diante do transcendente, para onde deve apontar toda a religiosidade séria? Mas, actualmente estamos a viver uma religiosidade que se reduz a um sentimentalismo perigoso que apela à satisfação das emoções mais imediatas e nada mais fica ou compromete para além do momento. Aquele momento do «foi bonito», até mais uma próxima vez onde irei satisfazer o ego com o verbo encher. É a religião reduzida ao pacote com a data de prazo bem definida. Está na moda a religiosidade sentimental, imediatista ou baseada nas emoções. Esta é a acção pastoral da maior parte das igrejas cristãs e católicas de modo especial. A crise geral da Igreja, que teme fazer reformas profundas, urgentes e necessárias para que a Igreja tenha resposta eficaz para entrar em diálogo com o mundo actual, puxa as pessoas da Igreja de hoje para a promoção de iniciativas que mobilizem algum público. As nossas «Missas do Parto», não se tornaram famosas ou simpáticas pela mensagem para a vida que transmitem, mas pela diversão, pelos comes e bebes que se oferecem nos adros das igrejas. É o sentimentalismo no seu melhor. O bailarico move multidões neste caso, felizmente, estes últimos anos o mau tempo, chuva e vento fortes, não permitem tanta diversão ao ar livre e obrigam que mais alguns entrem nas igrejas. Não quero com isto descurar as pessoas que sempre participam nestas celebrações, que a elas aderem pela fé e que dessa forma melhor pretendem celebrar o Natal. Outro aspecto, que mobiliza multidões e que alimenta o ego de muita gente, é Nossa Senhora. Iludir-se com muita gente que as imagens e celebrações com Maria mobilizam é um puro engano - (onde está Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus, lembram-se?) - não representa renovação da Igreja nem muito menos significa mais e melhor compromisso na vida da Igreja e do mundo. É o puro sentimentalismo do «foi bonito» e nada mais resta. É curioso que nos primeiros séculos do Cristianismo - e os Apóstolos foram pioneiros - houve a proibição do culto mariano. Não se falava em «Nossa Senhora», mas em Maria de Nazaré, para evitar o risco de se endeusar Maria ou com isso levar à irrelevância o essencial, que é Jesus Cristo, como Filho de Deus, o que verdadeiramente importa no Cristianismo. A este propósito, conta-se que no século XIX, um bispo do Funchal chegou a proibir as Missas do Parto. Actualmente, recorre-se a «Nossa Senhora» e, de modo especial, às imagens que se veneram nos grandes Santuários Marianos, para mostrar algum peso e presença da Igreja no mundo de hoje. Este caminho, aparentemente, sabe bem, enche o ego e deixa satisfeita alguma igreja, mas para o futuro e em termos de compromisso de todos e de cada um na vida da Igreja e do mundo, redunda em nada. Porque tudo é vivido emotivamente, o momento e a situação de vida de cada um (uma doença, um conflito familiar, uma desgraça qualquer, a falta de trabalho e etc.), é o que conta, por isso, recorre-se a «Nossa Senhora», para agradecer, para esquecer e, essencialmente, para pedir. Estamos perante uma moda, um sentimento, uma emoção que deixa pouco ou nada de mensagem sobre Jesus Cristo e o Seu Evangelho. Em tempos de crise, facilmente se cai no sentimentalismo. Quando o ego de alguma igreja se satisfaz com esta religiosidade, estamos muito mal, porque é sinal que a crise ainda é mais forte do que antes se pensava. Por isso, requer-se coragem para que se trave todo o sentimentalismo que varre a Igreja de alto a baixo, mesmo que daí advenham alguns dissabores. A grande escola do Cristianismo é a coragem profética.
José Luís Rodrigues, Padre