Os números são outros. Mais mortos, mais desalojados, mais território arrasado. O Brasil é um país de grandes extensões. No entanto, ao ver as imagens que nos chegam é quase impossível não recordar uma tragédia idêntica que, há quase um ano, aconteceu aqui, neste lado do Atlântico.

É possível ver a mesma dor, a mesma imcompreensão. Cada história e cada rosto que marcam a tragédia em tudo igual à nossa, menos na dimensão.

De resto, está tudo lá. A fúria da água e da lama, as marcas deixadas na paisagem, os pequenos milagres e as grandes perdas. Mas também os erros que se repetem com as mesmas consequências.

Aqui, como lá, a tragédia bateu mais forte naqueles que já pouco tinham de seu. Nos que moram nas margens, nos sítios onde é possível construir a preços baixos e onde a fiscalização fecha os olhos. Porque não interessa, porque fica longe da vista e do coração. Porque os pecados e as omissões só se tornam visíveis quando tragédias sem memória surgem, assim, sem aviso prévio, sem ninguém estar à espera. E surgem com toda a violência e com toda a força de uma razão superior à incúria e ao esquecimento.

Dona Ilair salva, no último momento, pelos vizinhos. Dona Ilair e aquele gesto de quem tenta salvar, no cão que levava ao colo, uma vida que a água e a lama arrastavam em violência. Dona Ilair repetiu, num Brasil distante, a mesma convicção que vimos nesse 20 Fevereiro ainda demasiado presente. O gesto que salva, a decisão de um momento, o agarrar os últimos vestígios de uma existência interrompida pela fúria da tempestade. A solidariedade de quem vive a mesma realidade, o mesmo destino.

Mas, além da dor e do sofrimento, a tragédia do Brasil e a nossa têm outros pontos em comum. Demasiados pontos em comum, se quisermos. O desafiar a natureza, o deixar construir porque é mais fácil ignorar do que resolver os problemas. A tragédia e os erros não têm fronteiras e a natureza, quando desafiada, tende a responder da mesma forma.

Depois, quando o inimaginável acontece, todos ficam a conhececer um povo que só surge aos olhos do mundo, quando o mundo, com toda a sua imprevisibilidade, lhe cai em cima.