Leio, deixem-me que vos diga, com frequência, Santo Agostinho e daqui resulta, muitas vezes, a tentativa desesperada de deter o tempo. Parar o que se vê, se toca, registar um olhar que permita o que o tempo nunca autoriza: voltar atrás, rever, reviver, reexperimentar o contacto, neste caso, com o religioso. Se todas as questões são fundamentais para o sustento das nossas razões de viver não o é menos que todo o tempo presente é determinado, não apenas pelo o futuro como tal, mas também por acontecimentos precisos, temidos ou esperados, do futuro que cada um deseja ou procura adquirir, ou de que foge. A vida torna-se, pois, um constante medo, uma morte vivente ou uma marcha às ordens da morte. Quando se vive com o medo não se vive sem cessar, teme-se sem cessar. Todos os medos encaixam neste medo. Nesta teimosia dos olhos perante a ameaça de perda do melhor que o coração sente. Pois, só um presente sem advir é que está ao abrigo do perigo. Ao ler D. Manuel Clemente no seu último livro "Porquê e Para quê?" - Pensar com Esperança o Portugal de Hoje" fico com a ideia de que é precisamente o contrário: ele coloca em relação passado e presente, comum e singular, religioso e profano, "as verdades penúltimas que seguimos e aquelas que se desenham misteriosamente últimas". Neste tempo português, carregado de incertezas, esta obra de um dos homens mais nobres da nossa Igreja, apascentador de rebanhos e um dos maiores príncipes do saber, humanista profundo e mestre da Cultura, pretende documentar "a vivacidade de um pensamento rigoroso e polifónico que se abre, e nos abre, à esperança." Não sei quem disse que a esperança é a mais difícil das virtudes. Mas ao lermos D. Manuel Clemente concluiremos, com ele, "com inteira confiança nas pessoas que somos, os portugueses. E com a certeza firme de que sendo verdadeiro o objectivo do Estado e de todos os responsáveis sociais salvaguardar e promover a dignidade da pessoa humana, aumentaremos para isso as possibilidades materiais, culturais e espirituais existentes, que, no conjunto, constituem o nosso bem comum, na subsidiariedade e na solidariedade". D. Manuel, na obra que estou a referir, editada recentemente, quando questionado para um certo esvaziamento da política em Portugal responde com a frontalidade e a clareza que nos habituou: "Se eu considero o outro como outro e se não tenho oportunidades de reconhecimento mútuo, se isto me acontece, eu abstraio - torno-me espectador e, então, tudo se reduz a um drama. Está tudo reduzido a um drama, e as pessoas perdem densidade porque são figuras de um drama e são tratadas como uma encenação". Meditemos nesta reflexão no momento político particular que vivemos porque a política é mais do que um impulso clubista ou mera simpatia. Mesmo com as ideologias diluídas implica opções, caminhos, métodos, objectivos. O cidadão, ao escolher, não pode apenas ter em conta quem melhor interpreta os seus sentimentos ou defende os seus interesses imediatos. Tem de olhar o todo na sua história, nos seus valores inegociáveis, e num progresso que chegue com maior rapidez aos mais fracos e distantes do poder. É nesse sentido que há, na política, uma escolha a fazer a partir de um projecto de vida e de um futuro que se quer realizar. Porque a crise que vivemos "está na pessoa", segundo D. Manuel Clemente, porque cada um de nós não se esgota na efemeridade e na circunstância, porque, queiramos quer não, temos projectos e temos ideais que não se podem resolver no imediato, que requerem tempo, que requerem convivência, justifica o Bispo do Porto. Torna-se, assim, neste tempo, mais que legítimo ler e citar este mestre da Cultura. Assim foi feito…

José A. Roque Martins