Há meia dúzia de anos descobrimos, na Madeira ,um deputado que passou anos sem abrir a boca nas sessões plenárias da Assembleia Legislativa. Convidado a explicar-se, o parlamentar disse que fora o seu primeiro mandato, que estava a aprender e que depois então sim, que falaria em representação dos seus eleitores. E sabem que mais? a desculpa mais esfarrapada deste planeta passou como água na ribeira. E vai passar novamente nestas eleições presidenciais. Infelizmente, desde Ramalho Eanes que na cultura política portuguesa se aceitou fazer do Presidente da República uma jarra decorativa da mesa lá da sala do rectângulo durante o primeiro mandato. É normal. Por incrível que pareça, entende-se como normal que, no primeiro mandato de cinco anos, o Presidente não seja mais do que candidato a um segundo mandato. E, aí sim, vamos esperar que tenha a coragem de ser Presidente. Isto parece infantil, mas é verdade. É uma aberração da Democracia, mas existe. Que me lembre foi assim com todos. Mário Soares passou da convivência democrática à oposição a Cavaco, enquanto primeiro-ministro. Depois foi assim com Jorge Sampaio. Primeiro mandato sem ondas, segundo mandato vigoroso, tão vigoroso que dissolveu a Assembleia. E agora Cavaco. Aquele que esteve em Belém durante os últimos cinco anos a ver passar atentados democráticos, a promover uniões que viabilizaram orçamentos que agora critica, a aprovar diplomas para não enfrentar críticas, a vetar outros para agradar ao partido, a fingir não ver as falhas democráticas da Madeira... pois esse mesmo Cavaco promete que, daqui para a frente, é que vai ser. Agora é que vai ser mesmo justo e rigoroso. Parafraseando as suas próprias palavras, de uma arrogância igual à que tinha quando era chefe do Governo, Cavaco parece que vai nascer outra vez. E agora é que vai ser puro, interventivo, atento. Entretanto, o que lá vai, lá vai... E sabem que mais? a mesma desculpa esfarrapada vai voltar a passar como água na ribeira. Mas esta cegueira colectiva, esta falta de memória, este encolher de ombros, não é exclusivo das eleições presidenciais. Aparece também nas eleições autárquicas, nas eleições regionais - e como aparece! - nas eleições para os clubes, nas eleições para as casas do povo, nas eleições para os partidos, nas eleições para os directores de escola... Em Portugal, já se conhece a democracia. Falta saber como usar um dos pilares democráticos: o voto!