“Vou votar no candidato da tua terra, em forma de protesto”. Ouvi a frase de quem menos esperava. Na capital de gente formada e informada há quem prefira José Manuel Coelho para representar o país, para garantir a unidade do Estado, para fazer cumprir a Constituição. Porque é disto que se trata dia 23 nas urnas.
“Ele diz o que as pessoas pensam”, disse-me em jeito de reflexão outra pessoa. “Diz o que todos nós dizemos também nos cafés”, acrescentava, perante o meu ar incrédulo. E basicamente é isto que faz com que o primeiro madeirense a se candidatar à Presidência da República seja já a grande surpresa deste acto eleitoral. Não tanto pelos resultados, mas pelo abanão que está a dar ao país. E isso não é palhaçada, é um caso sério.
O pintor da construção civil deixou a nu muito do que somos. O segredo do sucesso súbito do comunista insular que vê num partido de outra extremidade do espectro político uma “barriga de aluguer” para levar a sua avante, reside em dois polos. Há quem ache que é mais eficaz votar nesta candidatura do que em branco, como forma de protesto pela falta de alternativas. E há quem se identifique pelas maneiras simples de quem vai à televisão dizer coisas sérias em linguagem acessível e que todos entendem. E estes não o vêem com o Tiririca luso.
Coelho também deixou sem defesas uma comunicação social preconceituosa. Que não tem pudor de deixar de fora do debate o candidato que acha menos capaz para as funções e que, quando se apercebe do erro que só podia ser justificado à luz de critérios jornalísticos, sempre discutíveis na sua subjectividade, oscila entre o paternalismo e a agressividade. Em linhas gerais foi isto a Grande Entrevista, aquela em que José Manuel Coelho consegui atrair mais espectadores que o Presidente em funções. Mas há mais exemplos.
Tudo isto precisa de reflexão. Se é verdade indiscutível que o candidato do PND tem de ser tratado de forma igual que os adversários, não é menos verdade que esta ‘democracia directa’ mete medo. Diz-nos que qualquer um de nós (com muito trabalho já que recolher as assinaturas não é tarefa tão fácil) pode chegar a Presidente. Sim, podemos. E se a moda pega e passamos a ter de escolher entre um leque de cem candidatos? Ganhamos com a diversidade? Ou desacreditamos ainda mais as instituições que deviam ser o nosso orgulho e estão na lama?
Depois há a questão mais pertinente. E se Coelho fosse eleito e a brincadeira tivesse consequências? Não é impossível. Em ‘Ensaio sobre a Lucidez’, Saramago conta a saga de um Estado onde ganhou o voto em branco, numa sátira mordaz ao sistema. Há outros exemplos que não são ensaios literários, mas factos históricos. Lembro-me das palavras de Churchill que considerou a democracia “a pior forma de governo, excepto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”. Para já é o mal que temos e com o qual temos de viver porque como alertava Licoln “o voto tem mais força que uma bala”. E por isso, acho que não se deve atirar de qualquer maneira.
O gaulês tem o mérito de nos fazer pensar. Ou então estou a hiperbolizar e isto é apenas um folhetim daqueles que o candidato tanto gosta e serve apenas para colorir estas presidenciais.Será?