Nunca mais peço desculpa para fora. Não se queimarão mais calorias à minha custa. No Europa, estacionei mal o meu carro, pois não encontrei um devido lugar legal, após 10 minutos às voltas. Tentei fazê-lo sem prejudicar qualquer utilizador que estivesse bem estacionado. Cálculos gorados. Quando voltei, um cliente do parque estava a braços com dificuldades para tirar a sua viatura. Por minha causa. Imediatamente pedi desculpa. De cada vez que insistia no salamaleque da desculpa mais a vítima do meu ataque me enterrava. Fui desancado, por cada reforço de complacência levava com um chorrilho de insultos à mistura com aulas de educação cívica sobre o que é o civismo. A minha falta de civismo deve ser brutal. Aliás, sou um brutamontes a pedir desculpas: uns fogem de mim com tanto medo, outros insultam-me! Voltei a apanhar tautau, com esta sensação de porrada por pedir clemência, quando, há dias, me dirigi, na rua, a um vizinho do meu prédio lamentando o facto de eu não ter podido comparecer à reunião de condomínio. Fui metralhado. Imagino eu se nem desculpas tivesse pedido. Não, é melhor não. Já não há permeabilidade a um educado pedido de desculpas? Como é? A nossa pele já não tem poros? Pois é, é mesmo assim. Gastam-se mais calorias a vociferar impropérios contra o agressor que pede desculpas do que a aceitá-las. É isso. Corolário deste conto dum tonto: da linha da desculpa felizmente emerge a linha da beleza: vi-a no sorriso conciliador do funcionário do Europa. Nunca mais me esquecerei do mesmo: estava longe da estupidez do meu pedido e, bem mais distante ainda, da de quem o não quis aceitar. Combustão, agora, só interna: peço desculpas para dentro. Tanta pancada, tantos tantas trombas mal encaradas, que o mundo, só às vezes, wikiliquida-me.
Élvio Camacho, Actor