Uma das tarefas fundamentais de quem dirige uma instituição universitária é a de prever a evolução do sistema em que se integra, de modo a que a sua universidade esteja preparada para as transformações que essa evolução implicar. Trata-se de um exercício complexo pois quem tem de o realizar tem de se libertar de práticas e tradições de muitos anos. E, uma vez diagnosticadas as potenciais transformações tem, ainda, a difícil tarefa de convencer a academia da elevada probabilidade de tais mudanças acontecerem, motivando-a para que para elas se prepare. Nas sociedades atuais, esta tarefa tem, também, um aspeto público. Com efeito, a intervenção da sociedade civil deixou de se resumir às suas manifestações de interesse pelo assunto, passando a assumir um papel determinante nas escolhas que a Universidade venha a fazer. Julgo, por isso, ser da maior importância partilhar com os leitores algumas ideias sobre as potenciais transformações que o sistema de ensino superior português poderá vir a sofrer no próximo futuro e que, por força do que atrás escrevi, estiveram na base do Plano Estratégico da Universidade da Madeira (UMa), aprovado em Maio de 2010. No documento, que se encontra disponível na página http:/conselhogeral.uma.pt (reuniões de 2010), elenquei um conjunto de potenciais transformações do nosso sistema de ensino superior. Entre estas, destaquei, na altura, a progressiva redução da intervenção dos estados com a consequente transferência de responsabilidades para a sociedade civil, o fim do protecionismo nacional na atribuição de graus académicos, a necessidade de novos tipos de formação, a validação da experiência profissional para efeitos de formação universitária, a avaliação externa, as alterações de procedimentos, o financiamento, a necessidade de alteração dos processos de decisão internos e a adequação da formação ao mercado de trabalho. Alguns destes assuntos interessarão menos ao grande público. Outros são de tal forma importantes que informar a opinião pública sobre eles é uma obrigação. Nos próximos artigos, procurarei abordar alguns deles, concentrando-me, hoje, naquilo que diz respeito ao acesso ao ensino superior. Imagine o leitor, por um momento apenas, que o sistema de acesso às universidades se alterava e que, de um sistema de exames e seriação nacional de candidatos, como o atual, passávamos a um sistema em que cada instituição fosse a responsável pela seleção dos seus estudantes. Teria sentido, uma vez adotado tal sistema, manter os numeri clausi? A passagem da responsabilidade de seleção dos estudantes para as instituições tem implicações práticas. Como deveria, nessas circunstâncias, proceder a UMa? Avançando para um sistema de exames que imitasse, a nível local, o atual sistema? Acrescentando a esse sistema de exames um outro conjunto de provas? Deve esperar que os possíveis candidatos se desloquem para realizarem os seus exames de admissão? A resposta não é simples, pois a UMa deve manter o propósito de selecionar os seus estudantes quer no todo nacional, quer internacionalmente. Estes são problemas reais que se poderão colocar, caso Portugal venha a optar por uma alteração do seu sistema de acesso. E, nesse caso, a UMa terá de considerar diversas estratégias, algumas das quais escaparão àquele que é o padrão atual. No Reino Unido, cabe a cada universidade a tarefa de seleção dos seus estudantes tendo a autonomia de escolher o método que usa para o fazer. A informação sobre os estudantes é disponibilizada por um organismo nacional e, com base nessa informação, e qualquer outra adicional que pretenda utilizar, a universidade procede então à sua escolha. Utilizando este sistema, diversas universidades têm vindo a ganhar uma grande experiência, o que lhes permite detetar erros cometidos no processo de seleção, corrigindo-os. Desta recolha de experiências têm resultado algumas conclusões curiosas, como, por exemplo, a de que os alunos de certas escolas secundárias têm, em geral, mais sucesso do que os de outras, mesmo quando entram com classificações idênticas. Um outro problema interessante é o que se coloca se se vier a optar pelo desaparecimento dos numeri clausi. Se tal acontecer, a mobilidade de estudantes entre universidades torna-se muito mais fácil do que atualmente. No presente, uma vez colocado numa dada universidade, um estudante tem muito poucas possibilidades de se mudar para outra. Nesse novo sistema, a sua dificuldade de mudança seria, quando muito, igual à que teria no acesso. No presente, as universidades portuguesas não são ameaçadas por este fenómeno, apenas tendo de lidar com o abandono escolar. Mas nos sistemas de acesso livre, a troca de universidade pode assumir proporções significativas, o que leva as instituições a procurar melhorar todos os aspetos do seu funcionamento, para tentarem garantir que são muito poucos aqueles que a deixam, não por não quererem (ou não poderem) estudar, mas sim porque lhes desagrada a universidade onde estudam. Em grande medida, o esforço para ter serviços melhores, instalações condignas, espaços de convívio, qualidade de vida no campus, são consequências deste problema específico. O futuro poderá trazer às universidades portuguesas transformações como as atrás descritas e estas têm de se preparar para elas. O esforço que a UMa tem feito, no sentido de recuperar a Quinta de S. Roque, dotando-a de uma zona ajardinada, com um circuito de manutenção, um campo de jogos, um parque de estacionamento e, no futuro, um restaurante é um passo para preparar a UMa para esse desafio que, acredito, acabará por surgir. E surgirá, bem mais cedo do que se pensa.

Castanheira da Costa