Posso não tratar o Mourinho por eminência e idolatrá-lo como um índolo, mas valorizo a sua autenticidade e, sobretudo, a sua portugalidade. Na cerimónia em que foi eleito o melhor treinador do mundo de 2010 pela FIFA, no congresso de Zurique, José nem tinha de justificar que é um português com orgulho no seu país quando puxou dos galões e decidiu falar na sua língua materna, pondo uma plateia de universalistas a consultar o tradutor do sexto idioma mais influente no mundo.

Confesso que não simpatizo com nenhum dos clubes onde Mourinho deixou a sua marca. Porém, cada vez mais estou convencido de que a sua trajectória transporta uma mensagem supra-futebolística, representando uma lição não para a personalidade, como muitos a confundem, mas para a forma de estar na vida - social, cultural, política, económica, financeira.

A vitória desta semana sobre Vicente Del Bosque, campeão do mundo com a selecção de Espanha em 2010, ou ante o rival Pep Guardiola, campeão espanhol em título com o Barcelona, clube que melhor pratica futebol na actualidade, foi encarada por José Mourinho com a mesma naturalidade com que foi goleado 5-0 ante os catalães em Dezembro último ou quando, em 2003, nos comandos da equipa técnica do FC Porto, sofreu uma derrota indigesta (leia-se a primeira e única da época), precisamente diante do Marítimo. “No final cumprimentei todos os meus jogadores e disse-lhes, de uma forma muito clara, que não havia imbatíveis e que algum dia teríamos de perder”, referiu na altura.

Desde cedo que percebemos que Mourinho dá muita importância às debilidades da sua própria equipa. O sistema 4x4x2 com que o FC Porto se sagrou campeão nacional foi construído a partir das suas vulnerabilidades. “No jogo estamos à procura das limitações do adversário, mas também se deve estar atento e preparado para as nossas próprias limitações”.

Na retórica, José Mourinho rompeu com o discurso ultra-ortodoxo da velha cassete dos treinadores portugueses que atribuíam invariavelmente ao árbitro tudo o que de mal viesse às quatro linhas em prejuízo das suas equipas. Era um pouco como ainda acontece no plano político: a responsabilidade pelo estado do país não é de quem administra as decisões estratégico-tácticas. A culpa pelos desaires é das regras de controlo do défice impostas por Bruxelas, esse árbitro preverso e permeável à influência dos grandes senhores da Europa. Ou será do FMI, esse juiz de linha visgolho mas ávido por tirar foras de jogo aos mais ‘cambados’ que se deixam ultrapassar nos lances em profundidade num terreno permeável onde se defrontam 24 nações sem coesão, sem entrosamento e sem fio de jogo?

O treinador lusitano implementou uma oratória mais condizente com a verdade: “eu acho que não há sistemas perfeitos, mas o nosso sistema é tanto mais perfeito quanto mais estivermos preparados para as suas debilidades naturais, logo temos de trabalhar as suas imperfeições”. Não tardaram a surgir os sósias de Mourinho, que imitavam-no na superficialidade do estilo eloquente em vez de trabalhar na adaptação da doutrina, que é realmente importante.

E porque "ninguém está acima do grupo", gostaria muito que, além da "disciplina táctica", pelo menos a lição da confiança nos contagiasse. “Gosto de pensar como penso e gosto muito que as pessoas que estão comigo pensem exactamente o mesmo do que eu. Que somos fortes, que temos qualidade, que somos os melhores, que ninguém nos pode ganhar. É a minha filosofia”, referiu. Mas o que é isso de ser o melhor treinador de futebol do mundo, quando Mourinho é o nosso melhor ensaio da portugalidade na actualidade?