Como cidadão português, se me fosse dado a escolher, preferia que o dia de amanhã, 12 de Janeiro de 2011, não existisse. Não por eu detestar a vida, o número 12 ou ter qualquer relação difícil com o mês de Janeiro, mas para simplesmente não assistir -mais uma vez- ao dramatismo económico e simbólico que esta data terá para o país. Como todos sabemos, amanhã, é dia de leilão das Obrigações do Tesouro; e por isso não será um dia propriamente igual aos outros dias, nem este leilão igual aos leilões anteriores. As expectativas são as mais baixas de sempre e pouco animadoras. A maquinação económica colocou-nos a jeito e nós deixámos. A não ser que ocorra algo extraordinário, como por exemplo, os interessados dispensarem o pagamento de juros significativos na ordem dos 7% ou mais, com este leilão, o país terá mesmo alcançado o limiar da sua capacidade de financiamento externo por meios próprios e, consequentemente, ficará à mercê da ajuda vinda de fora. Nada de que nos possamos orgulhar ou constitua capital geracional positivo. No entanto, não são as causas, os responsáveis ou a descrição exaustiva do contexto que mais me incomoda. O que me incomoda é imaginar que não tenhamos aprendido nada, pois, um país que em 34 anos necessita por 3 vezes de intervenção externa só pode mesmo ter problemas graves… de memória e acção colectiva, entre outros aspectos basilares da vida em sociedade, sem os quais não é possível viver bem num mundo frenético e pouco dado a posicionamentos meramente decorrentes de epopeias históricas passadas. Se no espaço de 34 anos, imaginemos, nas nossas economias familiares, tivéssemos que após sucessivas negações e acertos de contexto (pedidos de esforços), ter de comunicar à família que não podíamos fazer mais nada e que a única solução era pedir ajuda a um vizinho qualquer, que faria (melhor) as contas por nós, convenhamos, a família teria razões de sobra para duvidar de nós, da nossa capacidade e aptidão para administrar o interesse familiar. Todavia, parece-me óbvio que a família não poderia pura e simplesmente demitir-se de quaisquer responsabilidades do estado a que havia chegado a sua situação doméstica, até porque teria usufruído ao longo do tempo das acções do patres famílias (independentemente do género); e como tal, era também ela parte integrante e participante no descalabro alcançado. Dito isto, quero dizer que compete ao cidadão assumir as suas responsabilidades (!) e não perder tempo com a eleição de "bodes expiatórios úteis", que se fossem verdadeiramente capazes não os teriam conduzido a tal limiar. Após as intervenções externas do FMI (1977 e 1983), se voltarmos a viver em 2011 sob administração financeira externa, será intolerável sujeitarmo-nos a tal sem ao menos retirar dessa experiência as devidas lições, que espero, resultem pelo menos em novos comportamentos, adequados a um contexto pautado pela exigência e a responsabilidade. Porém, o meu receio -como já perceberam- nem são os rigores da intervenção externa, mas o imobilismo individual e social, altamente vacinado contra a mudança (de comportamento) e entretido no usufruto de rendas de várias espécies e escalas.
Ricardo Fabrício