Que o início do ano fiscal, civil ou religioso continue adjudicado ao mês de Janeiro, é uma evidência que não podemos negar, com excepção para algumas empresas e sectores de actividade que optam -entre nós ainda de forma pouco expressiva- por outros momentos para o início do seu ano/ciclo produtivo.

O fim e o início do ciclo de vida da nossa sociedade, actualmente comprometida e dependente da ética do trabalho, em estreita ligação com a praxis das actividades produtivas organizadas e competitivas, tem cada vez mais o seu epicentro localizado no Verão e não propriamente em Dezembro/Janeiro. Por isso, ao abrigo da hipótese que aqui esgrimo, para mim, um novo ano começa em Setembro.

Nos últimos dois meses, as actividades organizacionais estiveram descompensadas, algumas interrompidas ou mesmo paradas. A sociedade do lazer, irmã gémea da sociedade do trabalho, evadiu-se dos espaços de produção donde é originária. Tiraram-se férias, reduziram-se níveis de serviço e encerraram-se inclusive unidades, como fábricas, escolas e outras instituições nucleares ao funcionamento da colectividade do trabalho. Nem o indicador de frenesim urbano, que é o trânsito, resistiu à tendência; e só mesmo as caixas multibanco, as praias e os sítios de veraneio ficaram mais congestionados.

Tirando o sector turístico do rol da desaceleração da época, por razões que se prendem com o ciclo da sua própria exploração comercial, a esmagadora maioria das restantes actividades não escapou ao desejo massificado de fuga ao quotidiano, à inversão das rotinas, ou se preferirmos, à descompressão alongada dos seus subsistemas. Na época de Natal e de Ano Novo acontece algo semelhante, mas por outras razões e durante um período mais exíguo. Na verdade, nada que se compare ao período de Verão.

Assim, contrariando estações e calendários estabelecidos, por que não fazer de Setembro o início do ano? Uma nova métrica temporal? Talvez. As férias, como o momento chave para uma nova contagem do tempo social, parecem-me mais adequadas face às realidades e aos estilos de vida contemporâneos ocidentais. Chocados com a proposta? Não é caso para tanto. Se os aborígenes australianos recorriam a um sistema de oito estações para se situarem no tempo; se os Nuer estavam anarquicamente ordenados tendo por referência um tempo ecológico, como referem os estudos etnográficos de Evans-Pritchard; se as estações do ano caminham em certas paragens para uma relação alegadamente binária, com a variação a decorrer entre um Primaverão e um Outoninverno; se o tempo da International Air Transport Association (IATA) admite apenas duas grandes estações no ano (o Verão do fim de Março ao fim de Outubro -7 meses- e o Inverno nos restantes 5 meses, sendo a primeira estação mais extensa do que a segunda em 2 meses); enfim, se a contagem do tempo é fundamentalmente um processo de construção e adequação social, então, que razões válidas, inviabilizam a reformulação dos momentos de início e de fim da contagem do nosso tempo? Em rigor, a resposta é: nenhumas.

A organização e a contagem do tempo têm mudado ao longo da história da humanidade. Houve tempos em que as unidades de contagem universais eram inexistentes e em que não tínhamos coleccionadores de relógios, nem qualquer tipo de concertação em relação ao tema. Hoje temos instrumentos de mediação e convenções sobre o tempo, existem coeficientes de adaptação (fusos horários), por questões de precisão recorre-se mesmo a relógios atómicos, mas quem faz a leitura e constrói o tempo não são os relógios, nem os calendários. Somos nós, consoante as paragens e as prioridades sociais. Como um fabricante de instrumentos de medição do tempo anunciava a título promocional, o tempo é o que fazemos com ele. Literalmente. Deste modo, para todos os que, tal como eu, começam agora -em Setembro- um novo período de contagem do tempo, votos de um bom ano novo.

Ricardo Fabrício, Professor Universitário