Há dias, ao passar numa das promenades à beira mar por onde muita gente anda descalça, dei-me de caras com uma garrafa de vidro partida no chão. Em cacos de grandes dimensões ou numa imensidão de pequenas lascas de vidro prontas para se espetarem nos pés, a garrafa certamente escorregara das mãos de alguém, partira-se e ali ficara. Não houve sequer o cuidado de afastar os cacos ou pôr uns calhaus para chamar a atenção. Nada. Partir uma garrafa pode ser acidente; deixar os cacos abandonados é mais um exemplo da regra geral 'Quero lá saber'! Falta em civismo, o que sobeja em arrogância e má educação, atitude institucional e insolentemente propagandeada em público por quem, enquanto poder político regional, deveria dar outro exemplo. É sabido que os dirigidos tendem a seguir o exemplo que vem de cima. Mas quando quem dirige é o que é, como esperar outra coisa? Muito se tem dito sobre a necessidade e o dever de mudar comportamentos. Estou de acordo: não só não se pode prescindir de respeitar direitos mas é já urgente passar a exigir o cumprimento de deveres. E tomando como exemplo este mês de Agosto fica muito claro como alguns direitos - à informação, à participação e à expressão de opinião, entre outros - são violentados por quem tem o dever de os respeitar. A propósito da queda da palmeira no Porto Santo ou dos incêndios que queimaram a Madeira, este mês tem mostrado como, verdadeiramente, a governação se comporta. Não há declaração que não soe a falso e qualquer opinião que contrarie a voz oficial sofre de imediato uma tentativa de silenciamento através da injúria e da calúnia. É a intimidação ao poder! Para o secretário, os meios são suficientes, o governo fez o que devia e está tudo controlado. Mas pelo sim, pelo não, para evitar qualquer confronto com a realidade do terreno - onde se sabe que as torres de vigia estão vazias, as matas cheias de mato seco e há falta água nas bocas-de-incêndio impedindo o adequado combate pelos bombeiros; onde os caminhos-corta-fogo voltam a revelar-se inexistentes ou insuficientes e se pergunta pela imprescindível gestão e pelo ordenamento da floresta; onde a capacidade de resposta da protecção civil volta a estar sobre a mesa - o presidente descobre o novo inimigo: uma 'rede de incendiários ambientais' à solta; Usar ou não usar meios aéreos tem resposta para todos os gostos - não servem porque a orografia não permite, porque a defesa de meios aéreos tem a ver com lobbies, porque a água salgada estraga o solo! Tanta 'explicação' diferente cheira a esturro, mas o que ninguém explica é porque é que a opção pelos meios aéreos, tomada em 1998 e paga durante 10 anos, caiu por terra sem nunca ter sido testada!; É tamanha a ânsia de atacar, à mais pequena dúvida ou questão, que volta não volta se dão tiros no próprio terreno (enquanto o vereador do ambiente da Câmara do Funchal reconhece razão nos alertas da Quercus sobre a reflorestação, o director das florestas qualifica-os como ignorância e presunção; quem diria que esse vereador, por acaso antigo director do Parque Natural da Madeira, além de fazer parte do grupo dos presunçosos, é também ignorante!!!). Perante tamanha trapalhada, mais que o direito à informação verdadeira, temos o dever de exigir que quem nos governa não nos trate como tolos. No lugar de insultos, requerem-se respostas urgentes. Em vez de os governantes ocuparem cabeças e neurónios à procura dos sempre-eternos e sempre-inventados inimigos da autonomia, melhor será que concentrem esforços para encontrar as soluções certas. Porque nós, cidadãos, temos o direito de saber com o que contar no próximo Inverno, com as serras ardidas, sem solos para absorver as chuvas, sem coberto vegetal para conter derrocadas, e com muitos dos problemas decorrentes do 20 de Fevereiro ainda por resolver - em particular nas terras altas, precisamente aquelas por onde o fogo andou. Temos o direito de saber se existe, e como se operacionaliza, algum plano de prevenção e controlo de riscos - para que a Madeira não fique ainda mais sacrificada pelas consequências das incúrias e dos erros que potenciam, sempre, os desastres naturais. Temos o direito de saber em que medida todos estes acontecimentos vão condicionar ainda mais a nossa já dramática situação económica e financeira e qual a estratégia para a ultrapassar. Temos o direito de exigir que quem tem deveres a cumprir, os cumpra escrupulosamente. Seguramente já se percebeu que a garrafa partida e abandonada foi só um pretexto para esta reflexão.

Violante Saramago Matos