A sensatez do alerta do Secretário de Estado do Governo da República, em declarações feitas há duas semanas, sobre a ilegitimidade de promover a venda de Porto Santo como um destino de 'sol e praia' - a venda de 'gato por lebre', como destacou o Diário - faz todo o sentido e é de apoiar-se, importando no entanto chamar a atenção para a necessidade de reflectir-se sobre determinados aspectos, interligados que estão entre si, alargando a reflexão a outras áreas. Oxalá, a abertura para uma ponderação com os pés bem assentes na terra, com verdadeiro sentido das realidades, faça despertar nas mentes dos governantes - e não só - a vontade, a disponibilidade para reflectir sobre as reais potencialidades do Porto Santo, onde natural e destacadamente, cabe a sua praia magnífica - candidata à eleição no final da próxima semana a ser uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Falar da praia, é também falar das suas areias, cujas características e qualidades terapêuticas, estarão ainda por explorar, no sentido nobre da palavra. Complementarmente e de não menosprezar, outros 'atributos' existem, todos eles tendo um peso relativo, de que importa tirar partido, como a vela, o hipismo, o ténis e, naturalmente o golfe, sem que possa pensar-se que qualquer desses atributos, isoladamente, possa fazer de Porto Santo um 'destino'. Essencial, de uma maneira geral, será também analisar o problema relacionado com o investimento na hotelaria e no imobiliário turístico, que a utopia, quiçá habilidosa, senão mesmo oportunista, pode constituir uma ameaça fazendo avolumar as enormes dificuldades derivadas de problemas de crédito financeiro, obras por completar, riscos de falências, desaparecimento de operadores e, daí a importância da ponderação. Ora, se o Porto Santo, em termos de 'sol e praia' não pode ser um 'destino', muito menos isso poderá ser, em termos de 'golfe' como, já lá vão oito anos - estava a perspectivar-se a construção do campo de golfe - também escrevi desmistificando esse sonho, espécie de receita milagrosa, "panaceia para resolver os problemas da sazonalidade do Porto Santo que a todos preocupa, governantes e não só", que convém continuar a ter presente. No meio de todo o imbróglio, que envolve o desenvolvimento e a promoção do Porto Santo, o golfe que continua fazendo que anda, não se sabendo bem como, deverá merecer uma atenção especial. No golfe, foram e continuam a ser gastos dinheiros públicos de vulto, cabendo recordar, sem entrar em grandes detalhes, que à data do início do projecto, o investimento na construção foi estimado, a custos de então, em cerca de 3,5 milhões de euros, custo esse que seria suportado, essencialmente, por via de contrapartidas, pelo concessionário do casino que estava em concurso público. Uma vez que o projecto do casino 'morreu', o investimento teve de ser suportado pelos dinheiros públicos, que igualmente passaram a suportar a maior parte dos encargos operacionais, desde a abertura do campo de golfe, uma vez que os fundos gerados pelas receitas de utilização do golfe, são insuficientes. A este respeito, note-se que a estimativa inicial da Sociedade de Desenvolvimento do Porto Santo, só para manutenção, era de 4 milhões de euros por ano e que uma auditoria do Tribunal de Contas, divulgada em 2008, deu conta de existir uma dívida à IGA de 1,5 milhões de euros, de água não paga, mas desconhece-se o montante do passivo acumulado actual, indispensável para avaliação mais completa do peso relativo do golfe, na ponderação que há-de ser feita. Que a sensatez do alerta a que fiz referência a abrir este texto seja entendida a todos os níveis da governação, para que a legítima promoção e o desenvolvimento que o Porto Santo merece, aconteça mesmo, para não se falar mais no 'gato'….
Francisco Leite Monteiro