A desgraça da humanidade e do planeta está a ser cavada pela gula, um dos tais sete pecados mortais que a sociedade comete todos os dias. A avareza, a inveja, a ira, a soberba, a luxúria e a preguiça, os outros seis, também terão a sua quota parte de responsabilidades no futuro assombroso que estamos a construir para nós e para os nossos filhos, mas o mais preocupante na sociedade actual é mesmo a gula. O nosso sistema económico está em enormes dificuldades porque consumimos mais do que produzimos. Muitas empresas e famílias gastam mais do que têm, num ciclo dirigido à falência e ao colapso. E os governos, quer sejam autárquicos, regionais ou nacionais, ainda fazem pior, endividando-se cada vez mais, independentemente de estarmos em tempo de vacas gordas ou a sofrer as dez pragas do Egipto. A gula leva-nos a consumir hoje para pagar amanhã, condenando os nossos filhos e netos a pagar os nossos desvarios. Mas a nossa gula não se traduz apenas num problema económico. Mudar de telemóvel todos os anos, construir uma casa suficiente para abrigar 4 famílias, mudar de carro aos 30 mil quilómetros, fazer obras só para vender metros cúbicos de betão, consumir excessos de energia e produzir demasiados resíduos ou subsidiar e promover actividades sem interesse para a sociedade, significa também o consumo de recursos não renováveis que já começam a escassear para nós e faltarão para as próximas gerações. Com a nossa gula, estamos a comer não só do nosso prato mas também do dos nossos filhos, netos e bisnetos. A gula das sociedades e dos indivíduos é um pecado mortal contra o desenvolvimento sustentável, contra a actual e as futuras gerações. O consumo de combustíveis fósseis é um dos exemplos mais claros das consequências deste pecado. Estamos a queimar, em poucos séculos, a energia que a natureza levou muitos milhões de anos a armazenar através da fossilização de organismos vivos que acumularam a energia do Sol em compostos de carbono. Com isso, estamos a encher a nossa atmosfera de gases poluentes que provocam o efeito de estufa e as alterações climáticas e degradam a qualidade do ar que respiramos. Com a energia fácil dos combustíveis fósseis estamos a explorar ainda mais recursos, extinguido espécies, destruindo florestas, fazendo avançar desertos e enchendo o ambiente de detritos poluentes que também nos chegam ao prato. A avidez de consumir cada vez mais está a criar fossos cada vez mais profundos entre indivíduos e entre populações. Uns com muito outros sem nada. Mas, acima de tudo, o maior fosso que está a ser escavado pela gula insaciável é entre as actuais e futuras gerações. Hoje com muito para esbanjar, amanhã sem o essencial. A gula de hoje será a miséria de amanhã. Estamos a falar de uma questão que ganha raízes no mais profundo de nós, que bebe dos nossos instintos mais primários e dos quais, apesar das actuais sociedades ditas desenvolvidas, não nos temos conseguido libertar. A humanidade evoluiu em ambientes naturais onde consumir era uma questão de sobrevivência. Hoje, pelo menos nos países desenvolvidos, as nossas necessidades básicas estão satisfeitas. A maior parte de nós tem muito mais do que comida, um tecto para se abrigar e protecção contra a maior parte dos perigos que outrora nos ameaçavam. No entanto, apesar de fartos, não perdemos o instinto primário de consumir sempre mais, correndo o risco de não reservar nada para o futuro. É urgente controlar esta gula individual e social pois em 2010, à semelhança do que tem acontecido nas últimas duas décadas, antes do fim do Verão a humanidade já tinha consumido os recursos disponíveis para todo o ano.
Hélder Spínola