"Se sou diferente de ti, longe de te prejudicar, aumento-te" (Saint-Exupery) A França está a expulsar ciganos de origem romena e búlgara, considerados "ilegais". De pouco está a valer o facto de serem oriundos de um país da comunidade, e de, à luz dos acordos e princípios europeus, poderem circular nesta cosmopolita Europa Comunitária, dita dos Cidadãos. Na origem da expulsão, terão estado conflitos entre cidadãos desta etnia e autoridades policiais. Houve algumas reacções indignadas de instituições europeias, mas que cedo aplacaram a revolta e se desfizeram em pedidos de desculpa. O Presidente Sarkozy defende-se dizendo que apenas está a fazer, aquilo que muitos dos que o criticam até fazem à socapa, o que lhe está a render aplausos no seu país e não só. Inquietante esta postura, ao arrepio de anteriores resoluções e recomendações comunitárias, no sentido de se atender a esta minoria étnica. Além do cariz humanitário, a razão prender-se-ia com o crescente envelhecimento demográfico da Europa, e a contrastante fertilidade desta comunidade, caracterizada no entanto, por baixa esperança de vida, da ordem dos 10 a 15 anos inferior aos restantes cidadãos europeus, reconhecidamente devido a cuidados precários de saúde, a que a sua situação de pobreza e marginalização não será estranha. No nosso país, a questão cigana também não é pacífica. As Audições Parlamentares sobre a etnia cigana, levadas a efeito na Assembleia da República, em 2008, permitiram vislumbrar um mundo complexo de estereótipos, preconceitos e representações sociais negativas. Pretendia-se saber do estado da arte em relação à educação, à habitação e ao acesso ao trabalho nesta etnia, caracterizada no global por situações de pobreza, desemprego/não emprego, insucesso e abandono escolar, especialmente entre as meninas. Estas audições foram complementadas com três visitas ao Norte, Centro e Sul do país, onde foi possível ver condições contrastantes de habitabilidade, destes cidadãos portugueses. Do que foi possível ouvir e ver, há casos deploráveis de marginalização e miséria, mas há felizmente exemplos positivos de caminhos de integração. Salienta-se pela negativa e pela positiva, o papel de alguns autarcas dos diversos quadrantes partidários. Há aspectos na cultura cigana, discutíveis aos olhos dos princípios e direitos universais, particularmente no respeitante à situação da mulher e à sua subordinação à Lei Cigana. As meninas são retiradas da escola, à primeira menarca, de modo a preservar a sua virgindade. A estratégia é casá-las muito cedo, para prevenir relacionamentos fora da comunidade. Este é talvez o principal factor na base da fraca escolarização das meninas, a que o nosso sistema educativo não tem sabido dar a volta. E este é um aspecto central nos Objectivos do Milénio, (UNESCO, Dakar, 2000): a importância da educação da mulher, porque, sendo ela educadora dos filhos, poderá mudar tradições, no sentido de uma maior dignificação do ser humano. Felizmente, no que às mulheres ciganas diz respeito, há sementes de mudança, nomeadamente pela AMUCIP, uma associação de mulheres desta etnia, que reconhecem na educação, a mola necessária às rupturas a operar. Por dentro. Os ciganos, de uma maneira geral desconfiam da escola e dos seus ensinamentos. Só precisam dela para obter o essencial para sobreviver: saber ler, escrever e as operações matemáticas básicas que lhes permitam tirar carta de condução ou entender o código linguístico escrito. A vertente educativa da escola não lhes interessa: isso é responsabilidade da família. E os diplomas e certificados de nada valem a um cigano. O problema agora é a extinção gradual das feiras, mercados e da venda ambulante. Que outros meios de vida? Os técnicos do IEFP (Relatório Parlamentar, 2009) respondem: ninguém dá emprego a um cigano, eles têm de sobreviver com o RSI, ou a ilicitude. Ninguém quer um cigano como vizinho, ninguém aluga casa a um cigano. Por medo, preconceito ou ignorância. Sobre o RSI outro dado curioso da Segurança Social: não chega a 4% o número de famílias de origem cigana apoiadas por esta prestação social. Mas outros aspectos há na cultura cigana, com os quais poderemos, se não aprender alguma coisa, pelo menos respeitar. Um deles é a valorização e o respeito pelos mais velhos. Não há ciganos idosos em lares. Os velhos são um património estimado e respeitado pelos seus: são os líderes, cuja palavra é lei. Outro valor é a solidariedade grupal, patente em casos de internamento hospitalar ou qualquer outra situação grave, estratégia de sobrevivência, de entreajuda em ambientes de discriminação e rejeição. O caminho da integração passa necessariamente pelo conhecimento do "Outro". O que sabemos nós dos ciganos, que vivem na Europa há cerca de 1000 anos, que vá além dos estereótipos inscritos no nosso imaginário colectivo? Como tem sido todo este tempo? Expulsar é a solução?

Júlia Caré