Estamos a iniciar um novo ano político, como é gíria corrente, que se afigura muito acalorado, tanto, como alguns dias de Agosto último, que, infelizmente, nos deixaram cenários de devastação causada por inúmeros incêndios que depauperaram as nossas florestas, com prejuízos enormes e com reflexos significativos para a nossa qualidade de vida e bem estar. Para além disso, colocam-nos numa situação de maior risco uma vez que as nossas encostas ficam desprotegidas o que poderá causar transtornos na época das chuvas que se aproxima. Destruiu-se um património ambiental de importância vital para todos nós que se repercutirá na nossa economia tão débil que está. Por causa de alguns, cuja motivação temos dificuldades em perceber ou talvez não, face ao descalabro a que chegou a nossa sociedade, vamos sofrer as consequências, não só em termos ambientais mas sobretudo financeiros pois terão de ser encontrados recursos financeiros para a reposição dos danos agora causados que exigem intervenção imediata. Tenho dificuldades em compreender como é possível tudo isto acontecer e repetidamente com maior ou menor gravidade. Todos os anos assistimos a estas cenas deprimentes e inadmissíveis. Fala-se em planos de protecção da floresta, de prevenção contra incêndios florestais, de equipamentos adequados ao combate ao incêndio, com mais meios quer humanos e materiais, fluxos financeiros avultados mas nada disto consegue impedir que haja mais incêndios e com a gravidade com que deparamos este Verão de 2010. As temperaturas altas não são de hoje. Sempre as houve, talvez não com os reflexos tão acentuados como o presente. Sempre se realizaram piqueniques nas serras, mais no passado do que no presente, e nunca assistimos a este flagelo tão horripilante. A diferença reside tão somente naquilo que hoje é a sociedade, sem valores, sem respeito por nada, sem cumprimento de regras, sem civismo, sem educação. Outros valores se levantam sobretudo de índole material. A quem interessa tudo isto. É uma pergunta que nunca terá resposta. Contudo a nós, maioria da população não nos interessa nada. Guerra Junqueiro no prefácio da obra de Raul Brandão "Os Pobres" dizia "A expressão última da vida terrestre é a vida humana, e a vida dos homens, cifra-se numa batalha inexorável de apetites, num tumulto desordenado de egoísmos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram. O Progresso, marca-o a distância que vai do salto do tigre, que é de dez metros, ao curso da bala, que é de vinte quilómetros. A fera, a dez passos, perturba-nos. O homem, a quatro léguas, enche-nos de terror. O homem é a fera dilatada". De facto o homem na sua ânsia de todo querer, destrói, sem olhar a meios, levando a sociedade em que vivemos a degradar-se. É preciso mudar o rumo que seguimos que, infelizmente, não perspectivo por falta de acção e de vontade de querer alterar o actual cenário. Os políticos, e, basta ver a reentrada política após as férias, estão interessados em manter ou conquistar o poder pelo poder. Os problemas estão identificados mas não vemos soluções para os resolver. Caminhamos, se persistirmos em nada alterar, para o fim do abismo porque a terra aquece cada vez mais, o degelo aumenta a um ritmo preocupante, o nível das águas do mar sobe, as intempéries continuam cada vez mais agressivas, as inundações avolumam-se, os incêndios crescem de ano para ano em todo o mundo. Continuamos a assistir a tudo isto, a partir das nossas poltronas, através da televisão, com apreensão e preocupação mas não mais do que isso. Quando despertarmos para a realidade que vivemos, talvez seja tarde demais, porque na maioria das vezes a culpa nem sequer é das alterações climáticas que tanto se apregoa. Está no homem, alterar.

José Manuel Oliveira