Distancia-se no tempo o hábito de os madeirenses, à despedida de mais um ano de trabalho, saltarem para o cavalo do Verão e voarem a galope desenfreado pelo azul do mar, das montanhas, do futuro. Hoje, na angústia da esperança perdida, ainda se começa por planear o programa para 'recarregar baterias'. É a ânsia de relaxar, passear, pular das ilhas, sorrir e, quem sabe, voltar a rir com vontade. Conviver, brincar, amar, tomar um copo, nadar, passear, visitar, dançar. Respirar fundo e inalar novas ideias, desafios, apostas, projectos. Enfim, esquecer birras, apagar conflitos inúteis acendrados pela pequenez do meio e pelos contratempos do trabalho. Porém, em breve o sonho cede lugar ao pesadelo. A anestesiante era dos folguedos finou-se e a descida à Terra processa-se com mais estrondo do que se temia. No meio das temperaturas de fornalha que abrasam a vida, a Sociedade entra em férias sem ter percebido o mais leve sentido de estratégia por parte dos responsáveis. Não há planos específicos de retoma económica, de combate à crise, de elevação do moral. Se dantes se duvidava, hoje impõe-se a certeza: a Região só se governa com dinheiro... vindo de fora. Pensar, planificar e executar para criar riqueza e emprego, zero. 'Tudo a monte e fé em Deus!' Outrora, o trabalhador devorava férias a sonhar com uma promoção no novo ano laboral. Hoje, enquanto a família dorme, ele transpira perante a possibilidade de reencontrar a firma já encerrada. Ou tenta adivinhar quantos meses faltam para a falência. Verões houve que permitiam sonhar com uma mudança para melhor emprego. Nesta altura, o projecto é evitar o despedimento. O futuro é uma dor prematura. Muitos que já veranearam em destinos de sonho têm agora como objectivo prioritário escapar à legião dos novos pobres. As férias, cá ou longe, permitiam programar poupança para uma compra no futuro. Hoje há é que inventar meio de pagar as dívidas. Os mais antigos, apesar do país sempre pobre, saíam da escola de peito aberto a ventos e marés, dispostos a acabar com a guerra, a contestar para mudar o mundo, a triunfar na vida profissional. Os jovens saem hoje da universidade apavorados com as estatísticas dos licenciados sem emprego. Há criaturas mais espertas. Detentores do poder continuam a divertir-se empestando o Verão com incessantes diatribes e ausência de soluções que tinham o dever de procurar. Crise não é para eles. Pois se, quando querem, legislam imunidades e regalias para si próprios, mordomias, ordenados principescos e reformas de luxo vitalícias - e ainda aproveitam, enquanto dá, para garantirem futuro dourado aos seus! O pesadelo destas férias é real. Depois da onda colectiva nacional que juntou, mais do que uma vez, centenas de milhares a protestar contra as políticas do socialista Sócrates, que alternativa se perfila para o futuro? O PSD Passos Coelho. Que se propõe liberalizar o regime - com saúde paga, educação paga, livre despedimento. E falava-se do 'mentiroso' Sócrates! E ria-se das trapalhadas de Santana Lopes! Cá na Região, o desnorte. A febre do poder provocou uma explosiva mescla de neurastenia com histerismo. Esquisita patologia que não só veio provocar a fractura político-social, como neutraliza o ataque em forma à dramática situação vigente - disfarçada, ironia das ironias, por uma tragédia de Inverno! E vem aí mais um ano 'disto'. Um quotidiano feito de alarvaria institucional. De guerra sem tréguas para justificar a despótica eternização do regime. De arrogância e individualismo sórdido, a molestar quem paga os seus impostos e não cometeu crime nenhum. De transmutação político/comportamental que faz alternar a oca fidalguice com a brejeirice desabrida. Um dia-a-dia sem futuro para este povo insular humilhado e reprimido por uma ditadura implantada em 1926 e ainda sem fim à vista! Mais um ano 'disto'. Desestabilização gratuita que é para o povo temer os 'inimigos da Madeira'. Zaragata, peixeirada permanente para emprateleirar longe de cena as elites política, económico-financeira, cultural e tecnocrática da nossa Sociedade. Fantasmas delirantes: o 'triângulo do mal', a ERC, o TC, maçonaria, Trilateral, os traidores, a gandulagem, os colaboracionistas. Lá virá a discussão constitucional para tratar do tonitruante caso do inquilino de S. Lourenço. Ah, e de novos poderes para sufocar ainda mais o cidadão encurralado. Mais prepotência no mando. Por exemplo, demitir gestores ao pequeno almoço. Deturpar a história e até o presente que desfila diante de todos. E mais ilegalidades gratuitas, género cinto de segurança, tabaco e crucifixo, para atrair os flashes. Mais pseudo-conflitos com Lisboa para 'armar em forte'. Zangas pessoais para ganhar destaque de primeira página duas vezes: quando da zanga e quando das pazes (Cavaco, Soares, Balsemão, Sócrates, Passos Coelho). Mais ameaças: castigar 'sabotadores' do investimento, destruir jornais, sanear televisões. E outras ameaças de processos judiciais. Mais inaugurações de becos e visitas a obras paradas. Mais desmentidos mentirosos para contra-informar e artigos apócrifos no jornal do chefe. Mais tabu 'fica-não-fica' para ocupar o centro, para se alapar em segurança, a salvo dos alçapões. E 'reacções' diárias a tudo e a nada. Cumprimentos com chapéu alheio. Hinos ao 'povo superior' e 'morras' à Madeira velha. Mais contradições desaforadas. Mais antropofagia baseada no insulto, na calúnia abjecta, no ápodo escatológico. E, no Verão de 2011, à beira de eleições, outra edição da festarola na herdade Chão da Lagoa, hoje elevada à insultuosa classificação de "momento alto da vida cívica da Região". Ao que chegou "a vida cívica da Região", que, segundo o poder institucional, tem como ponto alto uma concentração montanhesa de macarrão e copos, poeira e sol, discursos avinagrados e música pimba. Mais um ano 'disto'. Logo, mais vitórias absolutas. Logicamente. Boas férias e bom regresso a quem é bom de estômago.