Temos assistido ao longo dos últimos anos a um conjunto de acontecimentos, com repercussões em vários sectores do Serviço Regional de Saúde. Esta situação tem originado diversas reacções e intervenções dos vários grupos profissionais com impactos ainda por contabilizar e mensurar aos vários níveis de actividade. O serviço público de saúde tal como o conhecemos a nível regional é considerado como um dos casos de maior sucesso da autonomia e da regionalização. O seu crescimento foi evidente ao longo das últimas décadas, em termos de recursos humanos e materiais assim como de novos equipamentos que conduziram a uma progressiva melhoria dos cuidados de saúde prestados às populações, com evidentes benefícios para o desenvolvimento da região, como o demonstram os vários indicadores de saúde. A capacidade instalada permitiu responder aos desafios do sector e à crescente necessidade em cuidados de saúde. Repensar a administração dos serviços de saúde na procura constante da qualidade dos cuidados, na melhoria da segurança dos doentes, no combate ao desperdício e na responsabilidade partilhada, é um desafio contínuo de qualquer governante. No período mais recente da administração do serviço regional de saúde, temos acompanhado uma gestão, que relega e marginaliza todo um percurso e experiência passada e não hesita perante objectivos e critérios meramente economicistas, com insipientes resultados, disputar com a maioria dos actores e sectores a imposição unilateral de regras e decisões sem diálogo, com frágil fundamentação e de duvidosa eficácia. Que serviço de saúde é este que se dá a sumptuosidade de dispensar técnicos altamente qualificados num tempo em que é necessário dar respostas eficazes e integradas, face aos critérios cada vez mais rigorosos da qualidade, ao crescimento das exigências dos utilizadores dos serviços de saúde, ao maior escrutínio dos media e ao aumento das litigâncias. Que motivação resta aos profissionais de saúde? Num tempo em que a permanente preocupação com a qualidade e a segurança dos cuidados de saúde passa por garantir dotações seguras nos serviços, condição induzidora de ambientes favoráveis á pratica. Restringe-se a admissão de mais profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros dificultando as necessárias resposta aos novos serviços e ao progressivo aumento do volume de cuidados, comprometendo os níveis de prestação, a qualidade e os projectos em curso. Assiste-se a um estranho discurso de que estamos melhor que outros, mas não se reconhece a real falta de profissionais, que se vêem confrontados com uma realidade que acarreta uma progressiva sobrecarga de trabalho diário, disponibilizando-se menos períodos de tempo para os utentes. Todos os indicadores apontam para um aumento da procura de cuidados de saúde, tanto em Portugal como na maior parte dos países europeus, decorrente das transformações demográficas verificadas ao longo dos últimos 20 anos, representadas pelo aumento da esperança de vida. A conjugação destes factores coloca novamente na agenda diária a discussão de assuntos fundamentais como a segurança dos cuidados e a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Assente no fundamentalismo dos números e na gestão dos fenómenos internos sem plano e estratégia, a discussão pública de temáticas importantes para o sector da saúde como o plano nacional de saúde 2011-2016, a governação dos hospitais em discussão publica até final da primeira quinzena de Setembro e o novo modelo da reforma dos cuidados de saúde primários, passam ao lado da agenda e das preocupações dos responsáveis pelo Serviço Regional de Saúde.

Juan Carvalho