Artigo 17º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «1. Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade. 2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.» Na medicina, anestesiar é uma arte e uma necessidade - tem a ver com a diminuição do sofrimento e a possibilidade de permitir intervenções garantindo o melhor bem-estar possível. Na política, a anestesia é perversa - adormece, embala, não para melhorar a nossa vida enquanto cidadãos, mas para nos levar a não pensar, a desistir de reagir, a aceitar tudo o que nos dizem. É isso que aqui se faz, há 35 anos, a partir da oportunidade única do surgimento da autonomia política, a que se acrescentou depois dinheiros a rodos: pegou-se numa população ostracizada e mal respeitada pelo poder central, com baixo nível de escolaridade e índices de analfabetismo e desconhecimento elevados, com uma colonia activa (expressão de relações de trabalho marcadamente feudal, com senhores e colonos) e eis a matéria-prima ideal para o que se seguiu. Ao mesmo tempo que se foram criando as infra-estruturas necessárias para melhorar a qualidade de vida, desenvolveu-se uma intrincada teia de interesses e dependências à volta do poder, alimentou-se o culto da personalidade, fazendo centrar em torno de um só, toda a razão de ser. O Único Importante - tudo com ele, o caos sem ele. Não se criou massa crítica, tentou alienar-se o pensamento, instituiu-se o medo - sabendo que esta é a receita maior para manter o poder e alimentar regimes, apesar do buraco sem fundo da dívida, do mais que previsível colapso das contas públicas, do desemprego escondido, da falência da estratégia, da irresponsabilidade no gasto dos dinheiros públicos, do deserto de ideias; apesar de um governo a quem não se reconhece governação nem rumo, que vai decidindo ao acaso, inflectindo a direcção a cada passo, desorientado pela dimensão das dificuldades e bloqueado no acesso ao crédito. Anualmente, a festa do planalto. Diz-se que Nada de novo, a exemplo de anos anteriores. Porém, permito-me realçar de forma especial, porque cada vez mais requintadas, a 'subtileza e a nobreza de expressão' do presidente e o 'primor de linguagem' do secretário-geral. É claro que sempre aparece um ou outro entrevistado que se descai e confessa que foi gozar um dia de arraial, ou aproveitou o passeiozito no Lobo Marinho, ou simplesmente ver o Tony Carreira - declarações 'inaceitáveis' de quem sobe à Herdade praticamente à borla e quando se apanha lá em cima é 'ingrato' o suficiente para não se mostrar disponível para o reconhecimento que é devido ao festeiro que paga a catarse e o endeusamento. Adormecidos os ouvintes, embalados na cantilena do inimigo externo, alimentados por uma linguagem de ódio e violência - tudo se pretende mais possível e mais fácil. Entre a poeira do planalto e as teias do poder vai uma multidão de artes de anestesia. Descidos à vida real resta, perdoe-se a redundância, a realidade refém dos grandes grupos económicos regionais; o compromisso promíscuo entre o poder e a igreja; a completa adulteração nos princípios básicos de separação de águas - não há iniciativa privada que não fique marcada pela tabuleta de cobre Inaugurada por Sua Excelência o Presidente do Governo. Porquê? Porque é obrigatório, é preciso, 'estar de bem com o poder'. A realidade que nos infiltra o medo e não nos quer seres pensantes, mas autómatos facilmente conduzíveis para onde convier. A realidade que satura os mais velhos e afasta os mais novos - os caminhos da intervenção cívica e política são hoje muito pouco aliciantes. Mas, também, a realidade de um poder saturado e apodrecido que cada vez menos consegue calar e conter o direito à indignação, o desejo de modelos sociais novos. Como em todas as anestesias, há sempre o acordar. E no que respeita à vida pública, raramente o despertar é tranquilo e sereno. E ainda mais raramente tudo fica na mesma. Anestesiar é coagir. Acordar é uma imensa necessidade.
Violante Saramago Matos