José Edgar da Silva Ter hoje em dia a sorte de viver um vida plena, implica que essa plenitude seja extensiva a uma vida sénior activa e dinâmica, o mais independente possível: que sorte não precisar de ajuda de ninguém e acabar os nossos dias "sem sequer se aquecer uma cama de hospital". É no entanto um sinal dos tempos, e uma "normalidade doentia", que toma aspectos de assimilação a uma cultura, preconceituosa de uma sociedade que se diz culta, toda a problemática relacionada com as "altas problemáticas". Embora a definição de cultura e de culto, não seja pacífica, é mesmo difícil, se atendermos a termos antropológicos ou humanísticos. A verdade é que o abandono no hospital de pessoas com capacidade de voltarem aos seus domicílios, é uma realidade difícil de se definir como um proce-dimento e um comportamento que se apreende, agora, com realidades de uma sociedade demasiado permissiva e desamparada, que relega com demasiada facilidade a obrigação no Estado, de cuidar e tratar, refugiando as suas consciências colectivas e individuais no articulado constitucional, se bem que as actuais condições e níveis de vida dos Portugueses, "ajudam" muitas vezes as famílias a tomarem decisões contrarias á sua consciência e vontade. Muitas das justificações apresentadas, pueris: "ela vive só", ou "ele não tem família", ou "não temos condições em casa", perfeitamente desmontáveis com os actuais incentivos ao apoio domiciliario, mas cujo sucesso depende do envolvimento da família, em que a sua pouca ou nenhuma abertura ou disponibilidade, por vezes, também condiciona a efectiva e eficiente oferta de cuidados continuados: a verdade também, é que enquanto a figura de enfermeiro de família não for uma realidade, o sucesso da oferta de cuidados de saúde nos domicílios, será sempre uma realidade distante e muito pouco eficiente: entenda-se como quiser, mas a verdade é que ele é o profissional mais capacitado para liderar, planear, executar, implementar e avaliar um plano de cuidados, numa lógica de envolvimento em equipa multidisciplinar; na prevenção ele é um elemento fundamental e insubstituível. Mesmo com os actuais "cuidadores informais", a assessoria de profissionais de enfermagem é condição obrigatória se na verdade se pretende implementar nos domicílios um verdadeiro sistema de saúde eficiente e eficaz ao nível de cuidados continuados, e se a prevenção é condição essencial. Existe legislação mais que suficiente, que devidamente aplicada preveniria o abandono nos hospitais, embora a sua não aplicabilidade tenha eventual-mente "medos eleitoralistas", pois qualquer idoso em situação de "alta problemática" poderia ser encarado não como um internamento normal num hospital, mas num hospital com internamento tipo "Lar de Idosos" e sujeito á respectiva legislação actualmente em vigor, o que permitiria fazer com que as suas reformas fossem geridas e aplicadas em seu beneficio pela instituição a quem de forma voluntária se entregou todas as responsabilidades de cuidar e tratar, sendo a tarefa de uma aplicabilidade justa da lei, tarefa dos serviços sociais da instituição. A actual crise financeira não é desculpa para se introduzir estas medidas, a sua introdução tem a ver mais com a protecção dos idosos e uma prevenção de claros abusos e apropriação abusiva de regalias que muito custaram aos idosos merecer e que devem ser usadas em seu benefício e não em benefício de quem justifica o injustificável: o abandono de pessoas por pessoas.