ML A Madeira continua arder. Lamentavelmente esta é a constatação a que chegamos quando saímos à rua e olhamos as nossas serras. Por todo o lado surgem novos fogos ou reacendimentos. Alguns ardem desde o dia 13 de Agosto, mesmo que nos mais recentes noticiários e pontos de situação feitos pelas autoridades nem sequer sejam referidos. É impressionante vermos como as coisas acontecem. Hoje fiquei triste e revoltado ao reparar que o fogo que subiu do Curral das Freiras em direcção à Boca das Torrinhas conseguiu descer para a Boaventura, numa zona onde a Laurissilva dava mostras de bom estado. Aqui, no ano passado, encontrámos, por exemplo, um núcleo "engraçado" de teixos (Taxus baccata), uma espécie rara; ou um conjunto de muschias (Musschia wollastoni) que dava gosto olhar; para não falar das pássaras, dos isoplexis (Isoplexis sceptrum) ou de outras espécies da flora endémica. Que irá restar do Montado do Urzal, onde as urzes combatiam a erosão? A ver vamos, e esperemos que o fogo não consuma toda a essa área, pois a estratégia do "deixar arder", "controlar à distância" não tem dado bons resultados. Já não bastava termos a cordilheira central toda queimada (mas é mesmo toda), agora o fogo prepara-se para "dar cabo" do verde da costa Norte. Acho que ainda não tomámos consciência do que nos está a acontecer. Talvez estejamos todos numa espécie de "limbo", onde não nos é permito ver aquilo que não querem que vejamos. E ficamos de braços cruzados, com um sorriso, porque o que aconteceu/acontece tem como palco o alto das montanhas, onde não há casas e onde não vive ninguém. O problema é que muitos de nós, enquanto caminhamos despreocupados, esquecemo-nos de pensar e reflectir que esse "alto das montanhas" não é assim tão distante e que, neste momento, está complemente pelado. A verdade é que entre o Pico do Areeiro - Pico Ruivo - Encumeada nenhuma urze se mantém de pé. Foi tudo queimado. E milhares de rochas e muita terra se preparam para descer encosta abaixo, aí sim, à procura das casas que todos nós conhecemos. Talvez, se isso vier mesmo a acontecer, aí sim, vamos para a valorizar esses aspectos... A reflorestação é necessária, mas não nos iludamos com ela, pois não vai resolver os nossos problemas no imediato. Já agora, que será que vamos plantar? Onde temos espécies naturais da nossa Região para plantar em todas as áreas queimadas? Vão reflorestar os picos? Como? Com que espécies? Porque será que não ouvimos falar destes aspectos? Porque será que não vemos estes assuntos serem debatidos na comunicação social? Simplesmente, porque não! E não deixa de ser caricato que no Ano Internacional da Biodiversidade a Madeira, que até tem uma floresta considerada Património Mundial da Humanidade, assista, quase de braços cruzados à hipotética extinção de algumas das suas espécies. Não deixa de ser caricato que nós, madeirenses, que temos na floresta uma das nossas maiores riquezas e um sustento do nosso turismo não tenhamos forma de combater os incêndios que a destroem. Isto talvez devesse ser objecto de uma aturada reflexão por parte de todos nós, madeirenses. Entretanto, aqui fica o apelo a quem de direito: não deixem a Madeira arder!