Manuel Nunes Ainda parece que foi a noite passada. De madrugada sentia a chuva a cair com intensidade nos beirais. Apesar de não conseguir dormir fui ficando na cama até que um sentido maior me mandou levantar. A chuva era tão intensa, o barulho do ribeiro a cerca de cem metros tão ensurdecedor que a primeira ideia me remeteu para Outubro de 1993. Mas não estávamos em Fevereiro de 2010, em pleno Inverno e o que estava a acontecer viria a revelar-se uma tragédia bem pior. Os concelhos do Funchal e Ribeira Brava foram duramente atingidos e o temporal pôs a nu tudo aquilo que a nossa falta de sensibilidade tem andado a fazer desde há 30 anos - obras sem sentido destruindo a natureza, esventrando as nossas montanhas, roubando às nossas ribeiras aquilo que sempre lhes pertenceu. Para quem viveu passo a passo os acontecimentos desta tragédia ficam momentos indescritíveis que nunca sairão da memória. A sensação de impotência por ter, dentro do carro, uma criança de tenra idade, banhada em lama e não conseguir arranjar uma saída para a levar ao hospital. O estar na soleira da porta da igreja do Carmo e ver a água subir velozmente a rua do Ribeirinho, como se a rua estivesse ao contrário. Um amontoado de pessoas residentes nas Babosas, a quem a enxurrada tudo levou, concentradas nas instalações do teleférico à espera que alguém vá socorrer uma idosa que não conseguiu fugir a tempo. Situações vividas que jamais deixarão de estar no nosso pensamento, especialmente quando dos céus brotarem as chuvas de inverno. Milhares perderam os seus pertences, centenas as suas casas e dezenas as suas vidas. Uma onda de solidariedade real e nunca vista veio em ajuda da Madeira. Outros apareceram a prometer isto e aquilo e foi o que se viu. As televisões, os jornais e as rádios filmaram, escreveram e gravaram imagens e palavras, muitas delas de ocasião. Passados seis meses já muito foi feito. Muito mais está por fazer. E o Inverno quase a chegar. Como se tudo isto não fosse bastante, eis que surgem os incêndios. Mãos criminosas que muitos se apressarão a classificar de doentes ou alcoólicos puseram a Madeira a fogo durante quase cinco dias. Bombeiros exaustos, sem meios apropriados para combate a fogos em zonas de difícil acesso, fazem guarda às áreas residenciais. A Madeira de ilha verde passou, em pouco tempo, a ilha negra. Passaram-se seis meses e seis meses passados estamos todos tão passivos, esperando que os outros resolvam os nossos problemas, ou que nos continuem a arranjar mais problemas.