Mário Tavares A vida é o que há de mais sagrado, de mais profundo, de mais válido e de mais novo. É uma inovação constante, sempre a abrir-se nos instantes sequenciais do tempo. É o verdadeiro rumo para o futuro. A vida é o dom maior de Deus, é a criação em contínuo acontecimento. As plantas vivem e transportam a vida, os animais vivem e levam em si a vida das gerações seguintes. Nós estamos no mesmo patamar. Mas foi-nos dado o encargo de sermos os seus zeladores, responsabilizados pela sua sanidade. Por isso estamos forçados a viver de olhos abertos, postos no Planeta Vivo que nos transporta na viagem do tempo. Assim a nossa responsabilidade com Deus é olhá-lo nos olhos e mantermo-nos em diálogo de entendimento e de parceria, porque nos foi dada, pelo baptismo, a categoria de parceiros em estatuto de filhos adoptivos. São Paulo é riquíssimo neste tema. A vida é um protesto contínuo ao infantilismo vivencial de tantas práticas religiosas. Deus nunca se apresentou como mono - estátua -, nem como senhor de subserviências. Mas o culto dos produtos mortos cedo se levantou e anda por aí, sempre activo e de roupa nova, atraindo todos quantos se satisfazem e se deixam aprisionar por estas figuras de religiosidade mortas e projectam nelas a solução dos seus anseios, inquietações e sofrimento. Está em moda e com muita circulação uma imagem bonita, atraente da "Virgem", a "Nossa Senhora", uma figura que não tem nada a ver com a Mãe de Jesus, por mais que a colem, um produto muito bem preparado para atrair os devotos, vítimas da educação para a subserviência. É um produto de laboratório artístico de massa e tintas, um produto morto, mas habilitado ao respeito, culto e veneração. Depois desencadeia-se uma mobilidade activa à volta dos produtos: a estátua, objecto de veneração, o terço, objecto ordenador e contabilístico de rezas, e a sonoridade do grupo recitador e cantante, num sentimento devocional de culto. É uma trindade morta, mas absorve a vida e alimenta-se com ela. Todos conhecemos a lapa nas plantas, nas hortas, nas árvores de fruto. A lapa são pequeninos insectos da família das cochonilhas que se instalam nas plantas, as cobrem, sugando a sua seiva. O agricultor inquieta-se e faz tudo por libertar as plantas destes parasitas que inutilizam toda a sua produtividade e as mata. Onde a lapa se instala, a vida amortece e morre. A religião, como mensagem divina, tem a função de acordar a consciência para as obrigações da vida. Só a vida viva nos encaminha para o horizonte do Eterno. A lapa devocional nas religiões dá-lhes outro rumo: ocupação, despesa, subserviência, ignorância, confusão e insucesso. É amargo viver numa religião infestada.