Com o advento do Verão, o tempo é sobretudo para as pessoas desfrutarem das suas férias, gozadas da forma possível… e também de uma certa trégua de temáticas tão intensamente badaladas, como é o caso, da Política, da Justiça e do Futebol. É um "silêncio" que, cá para nós, também sabe bem, depois de meses a fio de intensa e muitas vezes exagerada abordagem e boas doses de demagogia. Confesso que já não podia ouvir falar de casos pouco claros, de suspeições e insinuações, violação do segredo de justiça, de declarações e contra declarações, conferências de imprensa de jogadores e treinadores, jogos sem qualidade, "talk-shows" de entretenimento geral sem grande qualidade, entre outros. Foram doses gigantescas "do mesmo" que foram servidas à população e que, pelos vistos, parecem constituir uma boa receita para a obtenção de bons "shares". Fico um pouco desgostoso e incrédulo, quando se constata estes fenómenos, indiciadores de que o esforço em matéria de Educação e uma maior abertura à Cultura, continuam a ter reflexos que não parecem ser muito compatíveis com o que era expectável. Não estamos na "estaca zero", longe disso, mas o certo é que algumas "evoluções" de indicadores que nos últimos anos atingiram amplitudes significativas, não forçaram uma maior inversão, pelo menos, de alguns hábitos, práticas e atitudes. É pena, porque os recursos já absorvidos, deveriam ter proporcionado mais e melhores resultados. Naturalmente que não estou aqui, a tecer comentários de cariz pseudo elitista, isso não faz parte da minha prática e muito menos da minha forma de pensar, mas estou sobretudo a partilhar um sentimento de alguma frustração que nestas matérias sinto. Não estou também a fazer o discurso de pretensos intelectuais que acham horroroso o que é "popular", refugiando-se em estereótipos que não levam a lado nenhum, que constituem factores de imobilismo num ambiente de valores distorcidos e hipócritas, que muitas vezes, são disfarces de banalidades bacocas. Quero sobretudo chamar a atenção e dar, se possível, um pequeno contributo para que tenhamos uma maior sensibilidade para a qualidade e saibamos sobretudo conviver e usufruir de tudo o que podemos dispor nesse contexto. Mais ou menos popular, mais ou menos sofisticado, há felizmente todo um conjunto de actividades que podemos desenvolver que são acessíveis e que, certamente, nos darão um prazer especial. Estamos tão formatados com determinadas rotinas, que será necessário procurarmos, e de certeza absoluta que iremos encontrar tanta coisa que não valorizamos ou até desconhecíamos, que poderão passar a ter outro significado… A começar pela nossa própria casa, poderemos ter muito por (re)descobrir, bastará pensarmos no dinheiro que gastamos em bens e serviços que nos despertaram interesse e que não são minimamente aproveitados. E depois temos à nossa volta uma imensidão de possibilidades de criarmos diversão, gosto e prazer. Com mais ou menos capacidade económica, a sensibilidade e a capacidade de gastar, está sobretudo, em nós próprios e no conjunto de sentidos que somos capazes de desenvolver. Infelizmente, há imensas pessoas que são capazes de tal, mas que, estão como que embaladas pela letargia que a sociedade incute e urge fazê-las despertar para outros planos de vivência, sem que isso signifique abdicar de princípios e orientações que todos nós temos. Enfim, estamos no Verão, sem grandes ruídos de fundo, e quem sabe, há mais condições que poderão proporcionar a descoberta de práticas e respectivas sensações que nos façam sentir bem. Por mim, tentarei fazer por tal, sem renegar bons debates políticos, bons jogos de futebol e bom entretenimento. Entre outras coisas, igualmente boas…
Sílvio Costa