Concordo - em parte - com a Ministra de Educação. Temos resolvido os problemas de ineficácia dos processos de ensino-aprendizagem com chumbos e repetência, que se têm revelado incapazes de inverter os números do insucesso escolar e são antes um primeiro estádio do abandono escolar. A escola massificou-se. Os alunos das nossas escolas não são já maioritariamente oriundos de classes médias lusas urbanas. Os socialmente inferiores subverteram a ordem estabelecida. Foram reabilitados pelo menos ao nível do discurso político, adquiriram a sua parcela de direitos universais, introduzindo comportamentos diferentes no espaço escolar, trazendo para dentro da escola as marcas da diferença cultural do seu viver dia-a-dia. Encarada como desigualdade social, manifesta nas taxas de insucesso, há que aumentar a equidade educativa e ajudar as vítimas das desigualdades da sociedade e da escola. Chumbar é ser excluído, ter o rótulo na pauta e na auto-estima, e por si só não resolve os problemas de aprendizagem. É antes qualquer coisa que colide com o direito democrático e universal à Educação, consagrado na Magna Lei do País, que lavra tantas laudas da construção retórica do discurso da educação, (António Teodoro). A senhora Ministra da Educação está a esquecer o peso que a tradição, o "sempre foi assim" têm na organização institucional da escola, no seu nobre desígnio quixotesco. Veja-se a reacção: acabar com os chumbos é facilitismo, é passar de ano sem saber; quem não sabe, chumba! Este é o único plano B para a complexidade dos problemas de desmotivação, desinteresse, indiferença e aversão à escola, reflexo de graves problemas individuais e sociais, a comprometer as "metas de aprendizagem" que a governante agora pretende introduzir. Vem a propósito um exemplo de práticas organizativas e curriculares inovadoras, vindo de Inglaterra, implementado desde Setembro de 2007 numa escola para os 11 - 16 anos, uma "comprehensive school", situada numa área com sérios problemas sociais e baixas expectativas em educação, em que 40% da população escolar manifestam necessidades especiais não especificadas, incluída na lista das "failing schools", (escolas de insucesso). Adoptou-se currículos personalizados para cada aluno, a partir das suas aprendizagens já realizadas, devidamente acreditadas, com o suporte das novas tecnologias, oportunidades de e-learning, permitindo aos alunos escolherem as horas em que aprendem melhor. O trabalho organiza-se à volta dos conteúdos, destrezas, disciplinas e competências que alunos e pais, com a ajuda de professores, acham importantes. Criar horários individuais flexíveis e organizar os alunos, conciliando idades diferenciadas com as disciplinas escolhidas, não terá sido difícil. Na base, "strong collaborative community leadership and engagement", (forte liderança e empenho comunitário colaborativo) abertura à mudança e o envolvimento dos alunos em todo o processo. Não estamos em Inglaterra, mas mais do que introduzir, "metas de aprendizagem", por ano e disciplina, iguais para todos, como pretende a Ministra, ou persistir no "não sabe, chumba", talvez devêssemos questionar-nos sobre o que fazer, para tornar a Escola uma instituição significante para os nossos jovens, um pólo integrador de saberes e estimulador de talentos. É persistente, preocupante e socialmente perturbador o número de alunos que abandonam a escola portuguesa, a prova provada do seu falhanço institucional, político e social, uma instituição que é, as mais das vezes, um agente castrador de dons e confirmador de exclusões, porque continua a não ser capaz de dar respostas diferentes, a quem não se encaixa nos seus clássicos padrões de organização e funcionamento. Os problemas de insucesso têm que ser atacados em força à primeira manifestação de fragilidade nas aprendizagens. Currículos alternativos, Novas Oportunidades e a proliferação dos Cursos de Educação Formação Tipos 1, 2 e 3, não serão no seu conjunto o que se entende por verdadeira igualdade de oportunidades; soam a oportunidades de segundo plano, a soluções de recurso para os excluídos do currículo padrão, criado a pensar no grupo social dominante, uma sociedade conservadora, para quem a qualidade, o rigor e o mérito de um sistema educativo têm que apresentar uma taxa "aceitável" de chumbos. A medida fácil da exclusão educativa, contraditória do direito consagrado na lei; solução simplista profundamente injusta. Difícil é encontrar caminho para ensinar a quem não quer aprender (Santos Guerra): os que vêm à escola - quando vêm - marcar presença. Chumbar é facilitismo ao contrário.
Júlia Caré