Caro Dr. Alberto João Jardim. Tomo a liberdade de escrever-lhe a propósito da anunciada reflexão no Porto Santo sobre se deve ou não continuar líder do PSD e candidato a Presidente do Governo no próximo ano. Conheci-o em 1978 a dirigir o Jornal da Madeira onde eu acabava de entrar como estagiário. Ao longo destes trinta anos cruzámo-nos no jornalismo, na política e em encontros que a vida foi proporcionando. Sabe que acompanhei o inicio da sua carreira política e que aprecio o seu combate pela fundação da Autonomia e as lutas que travou na defesa dos interesses regionais. Sabe, também, que nunca gostei do seu autoritarismo, do seu estilo de governação e do sistema de dependências que criou na Região. Sabe, ainda, porque sempre lhe disse, que era capaz do melhor e do pior e que a sua perpetuação no poder não era benéfica nem para si, nem para a Madeira. Ao longo destes anos, partilhámos opiniões e até algumas cumplicidades. Os caminhos do jornalismo juntaram-nos várias vezes e a política separou-nos, outras tantas. Recordo com apreço as amenas cavaqueiras em que participámos ao longo da ilha. Foram os bons tempos, dos copos contra o sistema, da luta pela Autonomia e das inaugurações que melhoraram a vida das populações esquecidas da nossa terra. Recordo, em particular, um momento no inicio dos anos noventa, em que o então recandidato presidencial Mário Soares veio à Madeira acusá-lo de défice democrático. Encontrou-me junto à Sé e durante algum tempo, no seu automóvel, pelas ruas da cidade, desabafou as mágoas e ressentimentos que lhe iam na alma face ao comportamento dos seus adversários e, sobretudo, dos seus amigos. Estava ali o Jardim, homem inquieto, frágil e vacilante que são algumas das características da personalidade que às vezes esconde quando veste o manto diáfano do poder. Daí para cá muita coisa mudou. Passaram-se 20 anos. Esqueceu a máxima latina "Sic Transit, Glória Mundi" e deixou-se enredar pelo sistema que criou e do qual está prisioneiro. O criador já não vive sem a criatura e esta já não sobrevive sem o seu mentor. Admito que tenha consciência deste facto mas que não tenha a coragem para o enfrentar. O problema é que a Madeira entrou num período de apodrecimento da política, de decadência financeira e económica, devido ao esgotamento do seu projecto político. A responsabilidade é sua porque não soube ler os sinais dos tempos, não soube adequar o modelo de desenvolvimento às novas realidades financeiras e deixou que se criasse uma economia e uma sociedade, totalmente, dependentes dos apoios governamentais. Sobretudo, não soube sair na altura certa, dando lugar as outros protagonistas que sempre trazem novas ideias, propostas, projectos, imaginação e criatividade. A sua perpetuação no poder e da sua corte, impediu esta renovação geracional, absolutamente decisiva para iniciar uma nova era no desenvolvimento da Madeira e no progresso da Autonomia. Desde 1984 que promete aos madeirenses um último mandato. Agora, em 2010, volta à reflexão para saber se continua. Os que apelam para que se mantenha, não querem o seu bem nem o da Madeira. Querem, apenas, manter o seu poder e os seus lucros. Devo-lhe respeito e até admiração pelo que fez pela Madeira e pela Autonomia até ao final do século XX. Tenho que criticá-lo e até acusá-lo por estar a levar a Região para um beco sem saída e para uma recessão neste inicio do século XXI. Sei que não é dado a ouvir grandes conselhos, sobretudo, se estes contrariam as suas opções. Aceite, no entanto, as lições da história e um conselho de quem já passou pelo que está a passar: "Construir pode ser a tarefa mais difícil de anos. Destruir pode ser o acto impulsivo de um único dia" - Winston Churchill. Dr. Alberto João Jardim, obviamente, deve retirar-se. O Senhor já foi a solução, hoje é o problema.

José Manuel Rodrigues