Há ocasiões na vida em que é difícil escrever o que nos passa pelo pensamento. Estava mais do que cansada de falar nos problemas que mais nos preocupam e tinha pensado: em Agosto vou falar pela positiva, vou explicar as minhas utopias, vou apresentá-las e fazer algumas propostas concretas, para quem ler o meu artigo ficar pelo menos a pensar se algumas delas são ou não possíveis de por em prática. Eis que rebentam os incêndios e a Madeira, e para além doutros Concelhos, as Serras do Funchal ficam a arder, bem em frente da minha casa, fazendo as minhas boas intenções irem por água abaixo. É impossível não ficar revoltada com a nuvem de fumo de sexta-feira e com as colunas de vários focos de incêndio que teimam em não desaparecer das montanhas mesmo à frente dos meus olhos. Parece um pesadelo que nunca mais acaba e então quando vou ler as notícias e ver as fotos de como estão as serras da Madeira, particularmente o Parque Ecológico do Funchal, o Pico do Areeiro, o Pico Ruivo, etc. . Sinto uma dor tão grande e a revolta é ainda maior. Há no entanto algumas questões que não têm sido noticiadas e que eu gostaria de perguntar. Aquela enorme nuvem de fumo negro de sexta-feira, que se formou em menos de uma hora e que mais parecia uma nuvem duma erupção vulcânica, não terá sido causada porque alguma coisa rebentou ou explodiu que ajudou a incendiar ainda mais? Será que os tais eventuais suspeitos usaram combustível? Ou outra coisa se passou que está a ser camuflada? É porque não se forma uma nuvem de fumo como aquela, que até tapou o sol, com a evolução de um incêndio que a própria Protecção Civil reconhece que estava sinalizado desde a madrugada. E já agora como ficaram as serras depois do rali? Não ouve muito lixo deitado em todo o lado que não foi limpo e que depois do grande dia de calor de quinta-feira ajudou a propagar o fogo? Até posso estar a exagerar mas era bom que as respostas a estas e a outras perguntas fossem dadas até para corrigir o que de mal possa ter sido feito. Não basta o Presidente do Governo vir à missa e falar de "terrorismo ambiental" para que fiquemos todos esclarecidos. Para mim isto é muito pouco e o fogo posto não explica a origem de todos estes incêndios. É mais uma vez, encontrar apenas bodes expiatórios externos, para fugir às responsabilidades da governação desta Terra. Já estamos acostumados mas começa a ser demais. Não era altura da Protecção Civil e os Bombeiros estarem munidos de outros meios, nomeadamente aéreos, para que em situações destas possam dar respostas mais eficazes? Sabemos que vivemos numa ilha com uma orografia difícil, que tem ciclos de vida complicados, como são as chuvas no Inverno e os incêndios no Verão. Porquê tanto atraso em tomar medidas mais sérias? Se há fundos Nacionais e Europeus para a construção dum Radar horroroso, que é uma autêntica mancha na paisagem do nosso Pico do Areeiro, que agora ficou ainda mais horrível, porque não pedir ajuda para modernizar os meios e adequá-los a situações de catástrofe como esta? É uma autêntica tristeza ver os Bombeiros a olhar o fogo e não poder apagá-lo porque a ele não podem chegar. A frustração e a dor das populações que moram mais perto tem sido transmitida pela Comunicação Social, que tem feito um trabalho louvável neste aspecto. Se existem criminosos devem ser duramente castigados e os seus nomes deveriam ser divulgados, para sabermos quem são e também os castigarmos com o nosso mais profundo desprezo social pois, causar tanto mal e colocar em causa o nosso futuro, em termos de segurança, não pode ser encarado como um crime qualquer. Mas as responsabilidades, que devem ser assumidas por quem governa esta Terra, não podem ficar camufladas e devem ser claras para que o debate seja mais aberto e mais produtivo. Uma palavra final para a Associação dos Amigos do Parque Ecológico. Não desanimem e continuem a reflorestar as nossas serras porque, se não fossem vocês, a 20 de Fevereiro a desgraça teria sido ainda maior. Bem hajam!

Guida Vieira