A juntar à nossa precária condição económica e capacidade de encontrar ideias e soluções de futuro o país volta a este estado de fogo quase tradicional assumindo essa classificação fatídica que os governantes assumem como época dos incêndios. Como se isso fosse uma fatalidade incontornável, vamos dotando mais capacidade financeiras na aquisição de serviços de combate e vamos louvando o imenso esforço que bombeiros e outras corporações, a par da própria população, estoicamente dedicam todos os anos por esta altura no combate aos fogos florestais. Lamentam-se as mortes, honram-se as vítimas falecidas em combate e escutam-se as mesmas notícias de sempre dando conta de que os suspeitos já têm historial de fogo posto. Todos os anos a história se repete. O país vê enormes parcelas do seu território a arder perdendo funcionalidades e consequentemente, valor económico. As cinzas lixiviadas hão-de por sua vez contaminar lençóis de água com mais custos acrescidos na descontaminação que todos vamos pagar. A imagem do país a arder sugere a guerra. Imagine-se um inimigo lançando bombas, queimando o nosso território, a nossa pátria destruindo o carácter da paisagem o modo de vida e o sustento de tantas famílias. Se assim fosse, será que nos limitaríamos a dizer que era a época das bombas? Será que aceitaríamos de modo tão passivo a acção desse inimigo? Certamente que não. Contaríamos com a mesma disponibilidade de todos no acudir da situação mas não toleraríamos que qualquer força inimiga continuasse a brindar-nos com as suas bombas incendiárias. O mais natural seria um reforço preventivo da vigilância, com recursos humanos treinados para tal e, caso fosse necessário, outras valências tratariam de aniquilar o inimigo, no nosso território ou tratando de o controlar nas suas próprias terras. É inegável o reforço da capacidade e meios no combate aos incêndios mas, a nível da prevenção continuamos num nível precário ou até pior do que no passado, por via das recentes alterações orgânicas que afastaram das lides corpos que desempenhavam um papel preventivo e dissuasor determinante. Essas opções cegas, determinadas por um olhar de merceeiro, não cruzam contabilidades. Um avião custa mais que um grupo de pessoas. A Madeira, nestes dias, passa também por momentos de aflição ao nível de fogos florestais. Trabalho de décadas, decisões e investimentos difíceis são destruídos em poucas horas e levaram outra vez anos e anos a recuperar, naquilo que é possível recuperar. Todos e todos os dias temos que mobilizar ideias, recursos e vontades na defesa das nossas serras. Não podemos dar tréguas nem repousar nesta responsabilidade de manter funcionais os nosso ecossistemas de montanha, de modo a que eles possam continuar a assegurar os bens e serviços vitais que nos fornecem. Paisagem que nos molda o carácter e que vendemos ao turismo. Água, sem a qual a economia madeirense entraria em colapso irreversível. Recursos de exploração directa e indirecta que sustentam famílias e negócios, desde as madeiras ao turismo. É isto o que perdemos a cada incêndio que acontece. É demasiado valioso para que os criminosos possam ser deixados em liberdade ou para que nos concentremos predominantemente no combate. Prevenção, compromisso e disponibilidade de todos, sem hesitações ou complacências é o que se precisa. Não podemos correr riscos. Trata-se de matéria de defesa nacional, salvar e salvaguardar o território e impedir que venhamos a ser não mais que terra queimada.

António Domingos Abreu