Morreram, desde o meu último artigo, duas pessoas por quem tinha a maior admiração. A Maria Aurora e José Saramago. Senti-me de luto com estas partidas e não tenho dúvidas que os seus contributos, para que as mentes sejam mais abertas, vão perdurar no tempo, para desgosto daqueles que só os elogiaram (e injuriaram) depois de mortos. Aqui fica a minha homenagem às suas existências. Comemorou-se no dia 1 de Julho mais um aniversário da Autonomia Regional. Que triste comemoração. Ao ver as imagens, daquela que foi chamada de sessão solene, fez-me recordar imagens cinzentas de outros tempos, a preto e branco, onde a palavra autonomia não fazia parte do dicionário quotidiano. Tive pena da Autonomia. Acho que ela merecia mais colorido, mais diversidade, porque o seu nascimento, surge precisamente com esse significado, que ao longo dos tempos lhe tem sido retirado pela maioria que domina esta terra. Ainda senti mais tristeza quando vi o Povo na rua, para dar lugar aos que foram posar para a farsa. Então aquele que não sabia em qual cadeira se sentar e escolheu ficar junto daqueles que ao longo dos últimos anos impediram que a mesa da Assembleia fosse plural, foi de uma pobreza democrática que só dói a quem sabe o que verdadeiramente pode estar em causa com este comportamento. Depois seguiram-se as "aulas" sobre a autonomia, dadas pelo mesmo de sempre, sem contraditório, nas próprias escolas, até das forças armadas, que fiquei a pensar: mas que raio de autonomia é esta que não fala do que é preciso, que não balanceia o que está mal, que não debate o futuro, que não responde às carências sociais e económicas desta Região, que atravessa um dos períodos mais difíceis da sua existência onde o desemprego já atinge 16 mil pessoas? E a comunicação social paga por todos/as nós o que fez? RDP, RTP/M e JM? Nada! Loas às comemorações oficiais e o resto pura e simplesmente não existe. Que tristeza, que falta de pluralidade, que vozes tão mornas e cómodas… Que Autonomia é esta onde o Povo está cada vez mais dependente do exterior, onde os poderes autonómicos não são usados para beneficiar a maioria do povo mas sim para continuar a defender, em primeiro lugar, um punhado de beneficiados que nunca ficam desempregados nem com a vida estragada, pelo contrário, fartam-se de falar nos jovens empreendedores e nos jovens de sucesso, como se todos tivessem as mesmas oportunidades, o que é uma pura mentira. Que o digam os sem abrigo que aumentam na cidade mas a quem sempre foi recusado um local próprio onde pudessem se dirigir para procurar o apoio a que têm direito. Que o digam os jovens à procura de emprego e que não conseguem arranjá-lo ficando cada vez mais dependentes dos familiares para viverem. Que o digam os sem casa e os desalojados do temporal de 20 de Fevereiro a quem tarda o apoio a que já deveriam ter direito e que esperam e desesperam já a pensar no próximo inverno e no que lhes pode acontecer. Que o digam os/as reformados/as que recebem pensões de miséria mas a quem lhes é negado um suplemento para poderem viver com um pouco mais de dignidade. Afinal para que serve a Autonomia se não consegue ajudar as pessoas que precisam a viver melhor? De que serve falar em Autonomia se, quando são feitas reivindicações populares a resposta é mandar para Lisboa? De Lisboa sabemos que é difícil vir melhor, sobretudo com as políticas postas em prática pelos Governos que têm estado a governar o País que só têm agravado as condições de vida e retirado direitos que custaram tanta luta e esforço. É por isso mesmo que a conquista da Autonomia foi feita para que o Povo, de cá, beneficiasse com ela e fosse mais feliz. Mas esse foi um sonho que durou pouco e é pena porque se existisse uma política com prioridades rigorosas e não uma política de espectáculo, se a maioria respeitasse as minorias e delas aceitasse os contributos válidos, se a governação tivesse sido exercida com mais rigor económico e financeiro, estaríamos a festejar a Autonomia nas ruas, com o Povo e para o Povo, porque só ele é que deveria ser o beneficiado da verdadeira Autonomia.
Guida Vieira