A Europa, em particular os países do sul com incidência maior, por nos tocar mais proximamente, Portugal, atravessa uma grave crise económico-financeira produto de medidas tomadas à revelia do interesse das pessoas baseado em decisões especulativas que, apenas, beneficiam aqueles são detentores do poder financeiro.
Muitos têm falado sobre esta crise, reveladora da decadência cultural e de valores que a Europa tem vindo a registar nos últimos anos, proporcionando que outros, Estados Unidos em particular, venham ocupar o espaço que durante centenas de anos foi dominado pela Europa. Nem a União Europeia tem conseguido travar este declínio por ser uma união baseada em interesses muito economicistas, dos mais poderosos sobre os mais fracos, potenciando ainda mais o desnível de desenvolvimento entre os países mais ricos e os mais desfavorecidos, e não uma união baseada em estratégias políticas clarificadoras e de defesa dos interesses europeus.
Portugal por ser um país de fracos recursos e por produzir cada vez menos face à sua perda de competitividade é muito mais vulnerável a estas situações. No início da crise, 2008, Portugal já revelava sinais de que estava a declinar. No entanto, tentou-se negar a evidência dos factos, principalmente em 2009, ano de eleições legislativas nacionais. Apesar de muitos comentarem a situação do país, o facto é que houve sempre a tentativa de branquear a realidade, utilizando-se todos os mecanismos de informação ao alcance do Governo para o efeito.
Manuela Ferreira Leite, conhecedora da real situação do país, tentou por diversas vezes denunciar o caminho perigoso que o país percorria. No entanto, dado o seu estilo, carácter e inabilidade política, não foi capaz através das suas intervenções, clarificar ou esclarecer a opinião pública das razões das suas posições, diga-se pouco convincentes em termos de impacto público, para além de "jogadas de bastidores" muito fértil no campo político/partidário português, cada vez mais descredibilizado, por culpa própria e sem capacidade de transmitir confiança aos portugueses. Os portugueses têm o direito óbvio de serem devidamente informados sobre a realidade do país, o que na minha óptica continuam, ainda sem saber a total dimensão do problema e como chegamos aqui após tantos anos de sacrifício e de aperto.
Em condições normalíssimas, o Governo teria caído e nem deslumbro que a queda do Governo possa trazer mais crise do que aquela que já está instalada. Deixemos de falácias e encaremos o problema com realismo. Precisamos de uma nova alternativa capaz de mobilizar o país para a recuperação que é de todo imprescindível. Uma alternativa que defina de uma forma clara e objectiva uma estratégia de desenvolvimento para o país que rompa com o actual sistema improdutivo e incapaz de criar riqueza.
Não podemos continuar a definir medidas avulsas para tentar minorar a situação. O país precisa de uma profunda alteração da forma como utiliza o dinheiro que os contribuintes portugueses disponibilizam. Com cortes significativos no consumo, poupanças depauperadas, empresas sem carteira de negócios expressivos, banca portuguesa com enormes dificuldades para aceder a crédito no exterior, balança comercial altamente deficitária, exportações em queda livre, diminuição brutal nas receitas decorrentes de menor investimento, menor consumo, menor rendimentos por conta do trabalho face à situação do mercado laboral actual e com custos sociais que devem ser assegurados, nomeadamente pensões, assistência médica e social, levam o país a caminha do abismo que urge evitar.
O país precisa de produzir mais e de políticos e políticas credíveis que possam alavancar a confiança dos portugueses. Por outro lado, o Estado precisa reduzir toda a despesa inútil, que é muita, cortar em serviços e departamentos desnecessários, reduzir estruturas governamentais e do poder local, alterar o quadro administrativo português, reduzir o número de deputados face à dimensão do país e à sua população. É urgente ultrapassar esta obsessão possessiva do déficit orçamental que assenta em visões meramente economicistas que prejudicam claramente o bem-estar de todos nós e o desenvolvimento dos países em particular dos mais atrasados. Não podemos continuar a tomar decisões que empurrem os portugueses para o seu total empobrecimento enquanto uns poucos ficam cada vez mais ricos.
José Manuel Oliveira