Francisco Leite Monteiro A notícia no Diário de 29 de Junho, a propósito da reunião da Assembleia Municipal do Funchal, em que foi votado contra, um voto de pesar pela morte de Saramago, é tão só razoável como expectável, até mesmo depois de o representante do PCP, que propôs o dito voto, ter apresentado como argumento "que o escritor não poderia ser dissociado do cidadão, com todas as suas ideias e posições". Ora, aí está o que, naturalmente, determinou a votação.
Independentemente de reconhecer-se o seu talento, como escritor, a quem foi atribuído um Nobel da Literatura - um facto inquestionável - terão sido muitas as suas ideias e posições, parte delas já por mim assinaladas em texto publicado neste mesmo espaço, em 23 do mês passado, que ditaram o sentido de voto da Assembleia. Para citar, sem as esgotar, não é possível ignorar-se a ideologia anti-religiosa, que levou Saramago a proferir afirmações caluniosas e intoleráveis, assim como não pode aceitar-se declarações ofensivas para a pátria onde nasceu, que proferiu, a ponto de ter defendido a integração de Portugal no reino de Espanha, como uma província espanhola; e, não pode tampouco esquecer-se, a perseguição que culminou com a demissão de 22 trabalhadores do Diário de Notícias, de Lisboa, quando por lá passou, na direcção do jornal, em 1975, por 'delito de opinião', isto é, por incrível que pareça, por não serem, como ele, comunistas.