António Ferreira Lembro-me de ler o Contrato Social de Rousseau, o pai da esquerda, e pensar que nada daquilo fazia sentido. Ainda numa fase incipiente na minha formação política já tinha um certo pendor para ser de direita. Ser de direita, ou liberal-conservador, parece aos olhos de muita gente um auto-insulto, um caminho ínvio do ponto de vista intelectual, social e político. Confesso que a esquerda poderá parecer mais apelativa, mas quem conhece os detalhes sádicos da Revolução Francesa, que sobre o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade cometeram-se as piores atrocidades, depreende que qualquer sistema de pensamento fechado poderá ser perigoso e nefasto. A crítica usual feita à direita, principalmente ao conservadorismo, de ser insensível socialmente, de ser inconsequente e retrógrada deriva do facto de que a direita nega a existência de qualquer sistema formal de pensamento, ou seja, não acredita na imposição de modelos, esquemas, sistemas ou teorias formais. Isto não significa que a direita não acredite em regras e valores, simplesmente significa não devemos pensar, viver e agir segundo preceitos teóricos formais, por muito utópicos que estes sejam. Isto tem profundas consequências no modo de agir de um liberal-conservador. Um liberal-conservador abnega qualquer revolução, acredita na força da liberdade e é muito céptico em relação ao colectivo, prima em primeiro lugar pelo individualismo responsável, onde o mal existe e em última a análise existe por opção do indivíduo. O liberal-conservador vê o mundo com cepticismo e desconfia da engenharia social, é, enfim, pouco crédulo em relação a fantasias. Um liberal-conservador não gosta de seres autómatos, e recusa qualquer interferência na sua privacidade pessoal e mental. As ilusões da esquerda são certamente muito apelativas, mas pessoalmente prefiro a realidade e ter os pés bem assentes na terra. O corolário disto tem obviamente consequências políticas. Tal como nas minhas preferências pessoais, tenho preferências políticas que se coadunam com as pessoais. Prefiro uma sociedade incompleta, do que um «povo superior»; opto sempre pela liberdade, sem a desagregar da responsabilidade; prefiro o debate ao confronto; vejo uma sociedade justa, uma sociedade onde a igualdade de oportunidades seja regra, e não excepção. Para terminar devo dizer que acredito no pluralismo, de preferência esclarecido e diverso, não defendo a aniquilação do Estado, e oponho-me a privatização de sectores chave como a saúde, educação e justiça. Digo isto só para evitar equívocos, infelizmente, demasiado comuns na esfera política nacional e regional.