Artigo 16º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais. 2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos. 3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado.» Foi há poucos dias que, num programa da RTP-M sobre a Orquestra Clássica da Madeira, se alertava que todo o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos podia ir verdadeiramente por água abaixo - não se conseguem satisfazer várias condições das quais, segundo se percebeu, a mais dispendiosa será a Casa da Orquestra. Sempre adiada, apesar de tanta vez prometida. Dir-se-á que é da crise - e não haja dúvidas que, de agora em diante, esta será a resposta sempre que não se quiser fazer alguma coisa. Mas o problema é que, entretanto, há dinheiro para a concorrência desleal na comunicação social (que justificação tão patética: o JM não é do governo é da Região… e é a Região que paga!); houve dinheiros públicos para construir ou modificar estádios de futebol profissional; houve dinheiro para as sociedades de desenvolvimento - entre restaurantes, promenades, parques industriais, instalações como o Fórum de Machico ou a marina do Lugar de Baixo esbanjaram-se rios de dinheiro, para tudo agora estar ao abandono e sem utilidade. Mas não houve para esta Casa, para esta Orquestra poder continuar o seu trabalho de imensa qualidade e importância - quer no que à execução diz respeito, quer na prossecução da estratégia de educação e proximidade que soube criar com o público em geral, recorrendo a outras formas de intervenção, mais pedagógica, tocando música mais 'ligeira' mas com igual qualidade, cativando mesmo aqueles que possam não entender ou até nem apreciar a chamada música clássica - os resultados estão à vista: basta ver como os concertos já reúnem tanta gente que paga o seu bilhete e está lá por gosto e por prazer. Não por obrigação nem para ser vista. Não há nenhuma razão para que o Funchal não possa seguir, nesta área, o exemplo de tantas e tantas cidades por essa Europa fora: tem uma excelente Orquestra, com músicos que tocam muito bem e com a atitude certa no que respeita à capacidade de educar e aumentar o gosto musical. Só falta a vontade, mas não é a deles. Não se fez até agora a Casa porque não se quis. Porque não é preciso - a cultura não dá votos - além de, para alguns, ser mister perigoso - a cultura educa, abre novas perspectivas e horizontes, faz-nos pensar. Por coincidência, este programa da RTP 'caiu em cima' do dia da Região. Este 1 de Julho foi cheio de palavras, discursos, sessões, cumprimentos e elogios, mas que cada vez sabe a menos, porque cada vez mais é um pró-forma, uma rotina; é tudo formal e muito pouco sentido - em boa verdade, apenas mais um feriado. Quando aquilo de que se precisava era que este dia pudesse marcar uma mudança de rumo, apostando em novas ideias e estratégias - da ciência à economia, do turismo ao ambiente, da educação à cultura. Mas como já se esperava, nada. Para a Serra d'Água, em solidariedade - foi a justificação para a escolha da sede das comemorações este ano. O cortejo de carros oficiais a confluir para o pavilhão desportivo transformado em salão nobre revela pouco mais que uma muito razoável dose de exibicionismo. Longe vão os tempos em que a Serra d'Água foi comparada a uma cidade europeia de pequena dimensão; agora, que os exageros de tempos eleitorais já lá vão, o melhor mesmo é não dar muita confiança e deixar a populaça à porta, enquanto lá dentro as comemorações oficiais decorrem. Sem misturas. Atitude diferente seria de estranhar. Porque, também para isso, seria preciso ter outra cultura. Democrática, no caso.

Violante Saramago Matos