José da Silva Em tempo de vacas gordas, é tudo em grande, o desperdício passa ao lado; já no tempo das vacas magras, toma-se atenção ao desperdício dos menos abastados, para assim se compensar o que perdem os mais abastados, com a crise, e assim nada perderem e continuarem a ganhar: é assim na saúde! Qual a lógica de um só grupo que se acha "insubstituível" absorver 85% da massa salarial orçamentada para a saúde; quando se sabe e constata que é muito pouco provável que na prestação directa de cuidados e tratamentos intervenham "sozinhos" em 85% do tempo necessário a cada utente ou doente, inclusive o Sistema de Classificação de Doentes aplicado pelos enfermeiros está á vista e ao acesso de todos para provar precisamente, que essa não é a realidade. Mas existem situações ainda mais difíceis de perceber, onde eventualmente, em nome da tão propalada crise se justificaria intervir, uma delas são as diferenças aberrantes entre semanas de trabalho; como é admissível que a semana de trabalho dos médicos vá desde segunda feira a sexta feira das 08:00 ás 20:00h, e tudo o que ultrapassa isto é pago em horas extraordinárias, considerando horas nocturnas, feriados, sábados e domingos, e eis a aberração, é que o disparo em pagamento de horas extra é directamente proporcional ao numero de médicos de serviço e que pertencem ao quadro! A semana de trabalho dos enfermeiros vai de segunda a domingo, e engloba as 24 horas de serviço por três turnos, e enquanto as horas extras são para compensar a falta de efectivos, nos médicos o numero de efectivos aumentam exponencialmente o pagamento de horas extra, mesmo que esse numero não se justifique no serviço, nesse dia e nesse turno; quando a definição da semana de trabalho deveria ser uma e só uma, em igualdade de circunstancias. A pergunta é qual se deveria impor, e aqui a "porca torce o rabo" para o lado que todos deduziram. Mas existem outros e mais esquemas de "multiplicação de remunerações" que podem e devem ser desmontados, na saúde e em especial nos hospitais, e de certeza que não são dos enfermeiros, eles existem e portanto não podem ser negados. Mas eles mantêm-se e são defendidos com o ataque "ao desperdício" que eles consideram "poupança" e que afectam outros que não eles; dominar o sistema permite-lhes essa cobardia. Basta ver como são conduzidas as negociações com o Ministério da Saúde, considerando os intervenientes e as suas esferas de influência. Não existe exclusividade no acompanhamento do doente, ele é partilhado, e uma cirurgia de horas pode determinar muitas mais horas de acompanhamento, antes e depois da sua ocorrência, por enfermeiros, e inclusive a intervenção de mais de um medico, ou especialistas em outras áreas da saúde como a fisioterapia e a reabilitação, por licenciados em outras áreas do saber, estar e fazer na saúde, com licença para intervir de forma independente e autónoma, assumindo as suas responsabilidades e não diminuindo as responsabilidades de outros, como alguns clínicos anacrónicos, tentam ainda hoje fazer notar. Esses problemas surgem hoje, com as triagens nas urgências, feitas por enfermeiros que determinam o tempo que aquele doente deverá esperar para ser observado; os que defendem que essa triagem deveria ser feita pelo médico, estão errados, porque o que esperam, e o qual desmontaria o fim para que o sistema foi criado, era que acontecesse a consulta na altura da triagem, o que a tornaria obsoleta e inútil: assim até alguém poderia concordar; bastaria um médico na triagem, o mesmo na urgência que tudo faria, seria uma monumental poupança. É por estas e ainda por muitas outras que as exigências dos enfermeiros, são justas e pecaram apenas por tardias e por boa fé terem continuamente aceitado adiar e negociar a justiça das suas reivindicações. Pode-se na saúde cortar com eficiência, basta estar atentos a quem "engole" os 85% do orçamentado na saúde para pagar salários, e intervir, sem prejudicar o mais importante que é a qualidade do atendimento ao doente, aquele que só e o centro do sistema, em discursos oficiais ou conferencias de imprensa.