A bomba atómica chamada Passos Coelho deixou também a Madeira em estado cataléptico. Mas não desintegrou a controvérsia criada com a visita de Frei Bento Domingues. O frade avisou que o abraço do poder político sufoca a Igreja. Como versos satânicos, esse e outros conceitos desassombrados abalaram o Paço Episcopal. A resposta arrasou. Frei Bento Domingues ter-se-ia prestado a um "sermão de encomenda" na visita a convite de um "padre suspenso". Pergunta-se: que tem de extraordinário o conselho do frade dominicano à Igreja para que não se deixe dominar pelo poder político? Não será verdade (conforme documentos à vista) que quando a Igreja se deixa abraçar pelo poder, o poder trata de a sufocar? Onde está a dúvida de que, como pregou o frade, devia ser missão da Igreja "alertar para a voz dos sem voz"? A Igreja da Madeira em nova versão veio deparar-se com uma Sociedade radicalizada. Guerra de onde é difícil desertar, dadas as ligações históricas ao regime vigente. Mas, depois de um curto 'estado de graça', os actuais membros do Paço deixaram-se confundir na voragem político-social. A contestação a Frei Bento, dentro da indiscutível liberdade de expressão, não indicia porém o mais leve desejo de concórdia. Martins Jr., o 'padre suspenso' atacado na resposta episcopal, insurge-se contra o espírito velho de padres novos. Com efeito, até padre Agostinho, pároco em Santana e no Caniço muitos anos, e que se assumia ferrenho conservador dos tempos das 'sacas de carvão', fazia questão de evidenciar total respeito pelos que defendiam ideias novas dentro da comunidade católica. Pondo em dúvida o catolicismo de Bento, possivelmente para proteger os fiéis das 'terríveis' influências deletérias do frade, o Paço apoda o professor e investigador de "pequeno". E determina: a Igreja deve escutar e fazer a vontade de Deus e "não as vontadinhas de um ou outro". Podia começar o Paço por ajudar a combater as injustiças sociais em vez de deixar crismas a meio para, com vista a satisfazer "vontadinhas de um ou outro", acorrer a inaugurações eleiçoeiras - onde se produzem ofensas de carroceiro, nada cristãs. A Deus o que é de Deus, a César... O Paço preocupa-se com os "desvios" dos cristãos na "actual sociedade secularizada". Apreensão justificada, ante populações abandonadas à pobreza, à exclusão, a problemas que um carrilhão de nove sinos não consegue vencer. Ainda que o bispo imagine ouvir a voz de Deus no dobre nostálgico dos campanários. Pressionar os mandantes para que resgatem doentes e pobres desesperados das garras de seitas exploradoras imigradas, esses 'reinos de deus' armados em religiões quando não passam de alcateias peritas na extorsão, isso é que seria uma obra merecedora de aplauso, com a dignidade de outras missões que várias instituições religiosas têm cumprido nesta carenciada Região. D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, acaba de pedir aos políticos cristãos que cedam 20% dos rendimentos para um fundo social. Claro que o Paço não pode sugerir aos políticos de cá que, em vez de se limitarem a pedinchar auxílio externo, contribuam eles próprios para a reconstrução, porque alguém pode perguntar se o Paço, com os seus bens, já ajudou os desalojados. Outro bispo, D. Januário, também saiu a terreiro alertando para as medidas de austeridade do governo, mais dramáticas para quem é pobre. Mas, por aqui, ninguém parece preocupado com os perigos sociais, nem sequer com a corrupção que, ao nível nacional, a Igreja não se abstém de denunciar. É nula essa intervenção. Ora, ninguém está a pedir o trabalho arriscado que os bispos desenvolveram no combate às ominosas ditaduras latino-americanas... embora D. Óscar Romero tivesse muito que sofrer, se acaso lhe fosse possível cumprir uma comissão evangélica na Madeira de hoje. Talvez extinguisse o incenso nas inaugurações materialistas e as medievas suspensões 'a divinis'. Ovelhas tresmalhadas podem não ser aquelas que pulam e vicejam fora do redil. Perante as posições discordantes, o Paço fala de perseguições à Igreja. Mas as críticas são dirigidas a quem ocupa os cargos. E não à Igreja. Não é à Igreja-instituição que se apontam interferências. Assim como não é a Madeira que está "manietada" por alguns políticos de Lisboa, ao contrário do que o chefe das Angústias tentou fazer crer estes dias. Quem Lisboa está a manietar é quem perdeu prestígio e delapidou a Autonomia. Adeus reconstrução, adeus revisão constitucional. É a resposta à política do interesse clientelar. Os sempiternos corifeus cá da parvónia contestaram algumas das peregrinas ideias do anteprojecto de Passos Coelho (novo líder PSD que, se não tem espírito de kamikaze, é um génio para proezas que o nosso modesto entendimento não atinge). Mas o que os corifeus mais atacam é a ideia de um Representante da República único para as ilhas. Falar numa questão de 'lana caprina' quando a proposta quer pôr o povo a pagar escola e hospital e o trabalhador à mercê de ambíguas 'causas atendíveis'. Há um ponto em que chefe das Angústias tem razão: a revisão deve operar uma reviravolta na Justiça. Não no aparelho de Justiça, como o chefe propõe, mas em termos de meter na ordem os políticos que, como o próprio chefe das Angústias, usam e abusam de mecanismos que lhes permitem cometer 'legalmente' o crime de obstrução à Justiça. Chefe das Angústias exige celeridade à Justiça, sim, mas nos processos contra os outros. Quando a investigação é às contas da Fundação PSD, toca a indicar deputados como testemunhas. A imunidade faz o resto. Já quando se tratou da acção judicial do Dr. António Loja contra o desbocamento do grande chefe, uma inédita carta chegou a Belém com um choradinho inocente: o Conselho de Estado não deve levantar a imunidade ao arguido. Enfim, tudo quanto for para agilizar a Justiça, força, revisão! E que a Justiça abra os olhos à corrupção trabalhada à vista de todos. Oportuna diligência, para ajudar, é acelerar o inquérito na ALM ao ciclópico endividamento da Região. A menos que a maioria não esteja interessada em expor 'chatices'. As previsões anunciam clima tórrido. Como acabará o braço-de-ferro do chefe das Angústias com Miguel Albuquerque, já que o autarca, sem prévia consulta ao patrão, resolveu apoiar a revisão do 'banido' Passos Coelho e trazê-lo ao Dia da Cidade? Este Verão é impróprio para coelhos e ovelhas tresmalhadas. Avé, César!
Luís Calisto