Todos os dias usam o argumento da crise para anestesiar os cidadãos e levá-los a aceitar o que, em alturas normais, não aceitariam. O tanto bater na tecla que a crise chegou para todos, que todos sofrem, que não há outra saída, etc., leva a que as pessoas aceitem medidas contra si próprias. Mas basta estar atento à realidade para ver que estes discursos não batem certo com o que se passa à nossa volta. Será que a crise chegou para todos? Um empresário encerra uma Empresa. Os trabalhadores vão para o desemprego agora com menos direitos sociais, embora tenham descontado para os terem. E o que acontece a esses Empresários? Ficam na miséria? Vão buscar o subsídio de reinserção social? Se são portugueses, em muitos casos, lá reaparecem com outra empresa, mas nunca se vê nenhum a estender a mão à caridade. Ou se são estrangeiros lá estarão, mais dia menos dia, a abrir uma Empresa idêntica num País com mão-de-obra escrava, depois de terem levado as ajudas da UE e do Estado Português. Que lhes aconteceu? Nada, mesmo que tenha sido uma falência fraudulenta - a crise afinal nem aqui é igual para todos. Será que todos sofrem com esta crise como infelizmente dizem os mais pobres para se resignarem na sua miséria? Enquanto que em nome da crise se ataca violentamente o sistema de Segurança Social, reduzindo a prazo os montantes das pensões e prestações sociais, recusando-se a aumentá-las a todos os que passaram uma vida de trabalho a descontar, deixa-se impunemente praticar um conjunto de benesses que custa muito caro ao erário público. Em 2009 o sr. Mexia recebeu 3,1 milhões de euros - 1,3 em salários e 1,8 em prémios. Para quem recebe 375 euros mês - 5.250 por ano - isto daria para garantir o pagamento durante 343 anos... E há mais e muitos mais - Zeinal Brava 1 milhão; Ricardo Salgado 1 milhão, etc.. E enquanto a crise se agrava, segundo o Banco de Portugal o número de milionários em Portugal tem vindo a crescer - de 9% para 11% entre 2008/09 - e o dinheiro depositado em offshores também - só até Agosto do ano passado já ia em mais de 9 mil milhões de euros, 5,5% do PIB, dinheiro que se pagasse impostos daria um importante contributo na correcção do défice orçamental. Estes exemplos, e muitos mais poderia dar até com o que se passa na Região, são a prova de que os governantes não querem combater a crise fazendo com que quem a cria, a pague. Basta citar a Associação Portuguesa de Bancos que revelou que os mesmos pagaram menos 40% de impostos em 2009, não por diminuição de lucros mas sim pelo enquadramento fiscal à medida. E basta referir também que para tapar os buracos de gestões que estão sob investigaão criminal o Governo não hesitou em usar o dinheiro dos nossos impostos para acudir a esses senhores - só para o BPN e BPP foram mais de 5 mil milhões de euros, que tanta falta fazem aos cidadãos. Depois para os Governantes os culpados da crise são os que ficam no desemprego - cortam-lhes direitos sociais, os reformados que em maioria recebem misérias - congelam e reduzem pensões, os trabalhadores que a Ministra do Trabalho convida os empresários a precarizar ainda mais, os utentes do Serviço de Saúde - com cortes na despesa e pior serviço, etc.. São os profissionais do Sector público - Professores, Enfermeiros, Médicos, Funcionários Públicos, etc., hoje novamente apresentados como os causadores da crise e do défice por receberem o seu salário e por terem direitos, porque descontaram para isso. Quem menos tem é o "inimigo público número 1", como faz o Governo, o seu parceiro do tango, o PSD, e o que quer entrar à força numa dança que só vai a dois - o CDS. Deixam fugir milhares de milhões para proteger a clientela e esfolam os que menos têm para conseguirem umas centenas de milhões. Assim só acrescentam crise à crise, enquanto houver resignação!

Paulo Martins