O momento actual e o futuro próximo que se adivinha não permite muito optimismo aos madeirenses. Depois de um período de grande mobilização em torno de um modelo que permitiu assegurar os direitos mínimos a um povo que vivera séculos numa dependência de um país subdesenvolvido e pouco preocupado em considerar a natureza e condições de vida insulares, a Madeira conseguiu resolver os seus principais problemas estruturais. Em pouco tempo, equipamentos, estruturas, educação, saúde e outras funcionalidades foram instaladas na Região permitindo a quem cá vive os mínimos que lhe são de direito. Era tão grande o atraso que a "simples" construção desses mínimos quase parece ser o limite do desenvolvimento. Mas não é. E não o é porque continuamos a ser uma região limitada, ultraperiférica, com falta de massa critica e capacidade produtiva que nos permita ultrapassar os constrangimentos que agora constituem obstáculo ao novo ciclo, o da sustentabilidade e competitividade. Não vamos nunca poder resolver a questão da insularidade nem tão pouco a da ultraperificidade ou a da dimensão física. Existem contudo outros obstáculos que, de momento, não nos permitem contornar a crise e rumar ao desenvolvimento a que os madeirenses têm direito. Insistir numa discussão em torno de processos não compreendidos nem assimilados por um Estado que não resolve é uma pura perda de tempo. A continuidade territorial é o conceito mais impraticável e subjectivo que se criou e que muito contribui para limitar as opções de futuro. Não vale a pena insistir em algo que não existe nem nunca será atingido. Nunca haverá continuidade territorial quer física quer jurídica ou política entre a Madeira e Lisboa. Estamos portanto a insistir num jogo cujas regras estão viciadas e se constituem como impraticáveis. Do mesmo modo a organização política, o jogo e os actores não se compatibilizam com a natureza, condições e futuro pretendido. Estamos atados a um regime constitucional no qual não contamos para nada mas que nos tolhe na simples gestão quotidiana. O regime fiscal, as normas e procedimentos em vigor nem servem para o país, quanto mais para a Região. E que dizer dos actores, em particular os partidos, as instituições reguladoras, de gestão e de investimento?. Quantos dos partidos, obrigatoriamente nacionais, possuem alguma visão autonomista? Nenhum. Aliás, o próprio PSD Madeira, pela sua natureza e independência relativamente ao PSD nacional é a melhor prova disso, tal como os restantes partidos o demonstram pela negativa, por via da sua incongruência permanente face à dependência dos directórios nacionais. Os institutos e entidades nacionais, na maioria das vezes, ignoram a natureza autonómica da administração regional e criam normas e procedimentos impraticáveis ou, remetidos para o habitual discurso de que se adapta às especificidades regionais mas que, na realidade, são inadaptáveis. Este estado de "amarração" de algo que se pensava conquistado é também causa que nos empurra para um vazio muito perigoso. Um certo estado de pessimismo que se vai instalando, algum receio no investimento e, sobretudo a incapacidade de decidir por nós próprios são os piores indicadores para uma autonomia que se acreditava ter atingido. Eis pois que estamos de novo no início de um processo de identificação e luta por mais autonomia. O processo autonómico agoniza, se ficar limitado apenas à capacidade de gestão e administração dos bens e meios públicos. Sendo fundamental, a gestão e administração desses bens e meios não é em si mesma a finalidade da autonomia, carecendo esta de evoluir para um nível capaz de assegurar a capacidade efectiva de decisão. Ter autonomia deve ser sinónimo de criar opções, decidir sobre as mesmas sem estar amarrado a abstracções de um país que não resolve nem deixa resolver. Precisa-se de política, enquanto criação de um ideal, mobilizador, com metas objectivas e capazes de mudar em detrimento de uma politica de gestão da situação. E precisa-se de gente capaz de querer, de forma clara, assumir esse desafio em vez de se limitar a gerir o lugarzinho e o conforto da cadeirinha que alguém possa proporcionar. Mais autonomia é preciso, para todos.

António Domingos Abreu