As transições de épocas desportivas constituem a maior dor de cabeça da generalidade dos dirigentes desportivos, não só pelo facto de traçar novos objectivos, mas sobretudo para adequar esses mesmos à capacidade financeira para os atingir. Quando se atravessa uma crise económica e financeira sem precedentes, como a actual, todo o cuidado é pouco na elaboração de orçamentos, rigor absoluto na gestão das receitas e despesas, principalmente para não colocarmos em causa a continuidade das instituições desportivas a que pertencemos ou gerimos. A cada ano que passa, o desporto português é assolado por clubes em dificuldades, as inscrições nas respectivas competições são feitas a conta gotas e os pressupostos financeiros são cada vez mais difíceis de cumprir perante a passividade dos dirigentes federativos e das ligas. A passividade com que as cúpulas federativas aceitam estes cenários, revela bem o estado da falta de credibilidade em que está mergulhado o desporto nacional, pois logo que começam os campeonatos já se ouve falar de ordenados em atraso, de treinadores despedidos antes de começarem a treinar e outros que mal começam são logo postos em causa. Este estado de espírito é desmotivador, a falta de confiança apodera-se de todos os agentes desportivos e consequentemente os adeptos afastam-se dos recintos desportivos porque deixaram de acreditar numa competição saudável, alegre e de verdade desportiva. Se exemplo de credibilidade desportiva queremos ter, olhemos para Espanha, não só por se ter consagrada campeã do Mundo de futebol, mas pelo forte investimento que fez nos Jogos Olímpicos de Barcelona, mobilizou todo o fenómeno desportivo nacional e projectou-o em termos internacionais para se tornar hoje na maior potência desportiva do mundo. No ténis temos Rafael Nadal, na Fórmula 1 Fernando Alonso, no Basquetebol brilha na NBA Paul Gasol, no ciclismo a Espanha dominou as últimas quatro edições do Tour, a melhor liga europeia de basquetebol pertence a nuestros hermanos, a liga espanhola de futebol com as estrelas internas e externas que se conhecem, enfim, um sem número de modalidades que legitimam o estatuto mundial de referência. Portugal continua refém de paleativos pontuais na sua quase inexistente política desportiva, ao ponto de suspender parcialmente a utilidade publica desportiva da Federação Portuguesa de Futebol para não prejudicar a selecção nacional, mas que ignora o movimento associativo(com ou sem razão) e coloca em causa o trabalho de base de todos os clubes e associações. As crises podem tornar-se tempo de oportunidades se tivermos vontade de reflectir sobre o que de menos bom existe, sobre os excessos a que estivemos habituados e enfrentar os problemas sem receio, porque quem não arriscar a mudar vai certamente ficar completamente ultrapassado. Nota: uma palavra de gratidão à comunidade portuguesa( em particular a comunidade madeirense) na África do Sul, pela forma entusiástica e generosa com que brindou a Selecção Nacional no Campeonato do Mundo de Futebol 2010.
Boas férias a todos e saudações desportivas.
Jaime Lucas