Pode parecer simples exercício de retórica alguém apregoar, como o chefe da Madeira fez agora, que o sistema político "já deu o que tinha a dar" e cheira a "toque de finados". Mas o sentimento de desesperança alastra realmente como um vírus. E não apenas à escala nacional. Falando de sistemas, países há onde os partidos tradicionais, de tanto abusarem da paciência dos eleitores, caíram em desgraça e quase desapareceram. Os efeitos estão à vista. Isso aconteceu no Portugal dos anos 20, sendo certo que ninguém acha viável a reinstalação de uma ditadura hoje, porque o mundo é outro. Mas, entre outros Estados da actualidade, temos uma Venezuela onde os dois grandes partidos AD e Copei baquearam. Impera o chavismo bolivariano. Temos então que o sistema português "já deu o que tinha a dar". E as alternativas? Os políticos por certo não cederão o poder a tecnocratas que após o mandato sejam julgados em função dos resultados. Querem continuar a ganhar eleições, espatifar as finanças públicas a favor das respectivas clientelas e passar à dourada reserva sem que alguém lhes peça contas pelo descalabro. Atrás de si, deixam buracos financeiros, dívidas a perder de vista e burradas incuráveis para os 'eleitos' seguintes agravarem. No caso da Madeira, pior: sem rotatividade governativa, há um aparelho instalado que, mais de três décadas depois dos alvores da democracia e da autonomia, conduz a vida insular aos níveis a que estamos, em contraste com os píncaros reservados a meia dúzia de barões novos-ricos. É tudo democrático porque o povo vota, costuma ouvir-se. Mas não se fala do raio de um voto popular que é condicionado pelo sofisticado sistema sócio-político-laboral esmagador e asfixiante. Em suma, afigura-se perigoso e suicida deixar 'correr o marfim'. Arrepia ver o entusiasmo de José Sócrates ao descrever a situação portuguesa. O panorama é mais negro do que breu, mas o primeiro-ministro promete o éden terrestre ao dobrar da esquina. O Financial Times ironiza com o 'inveterado optimista'. Compete ao líder de um governo manter elevado o moral do seu povo. Mas enaltecer as delícias celestes perante quem padece nas fornalhas do inferno é errado e cruel. José Sócrates reage às aguilhoadas de uma oposição sem escrúpulos, interessada apenas em subir ao poleiro. Viu-se anteontem em S. Bento. Paulo Portas ao ponto de se oferecer para ministro, ali em directo. Cá nas ilhotas, impressiona o à-vontade de Brazão de Castro quando manuseia números do desemprego. O secretário não consegue libertar-se do estafado confronto da média regional com a do Continente, como se esse tratamento estatístico, aliás ardiloso, resolvesse o problema das cerca de 15 mil famílias em situação desesperada por falta de trabalho. O homem diz à mulher: "Bem, se morreram dez ovelhas ao vizinho, nós estamos bem da vida, porque só nos morreram oito." Mas isso é na anedota. Será que os senhores que chegam à governação têm de perder a consciência dos dramas que o povo vive, cá em baixo? O PR fala dos novos pobres. O primeiro-ministro abre o sorriso ao Financial Times e apregoa não haver país que nos últimos cinco anos tenha sido tão reformista. Cavaco abana o endividamento excessivo dos cidadãos. Sócrates elogia a coragem do seu governo. Os especialistas alertam para os perigos do Estado moribundo. Alguém notou preocupação no semblante do primeiro-ministro quinta-feira? Apenas sorrisos aplaudidos pela bancada rosa. Preocupante. Da oposição, umas abstrusas análises... de fazer rir e chorar. Preocupante. Uma criatura assiste àquele debate e sente necessidade de perguntar ao contínuo: desculpe, em que país estamos mesmo? Delírio igual, só aqui, nas ilhotas. Guiar a vida pública é ao sabor do calendário eleitoral. Mais depressa, mais devagar, à esquerda, à direita, acima, abaixo. Conforme o toque, conforme o folclore. Um regime colorido e mexicanizado, todo ele sabor latino-americano. Hugo Chávez, quando precisa de acalmar a oposição, ameaça invadir a Colômbia. Seu amigo Fidel critica a importância que a burguesia internacional concentrou no Mundial de futebol para distrair as atenções da troca de espiões Rússia-EUA e das manobras de navios de guerra israelitas no Golfo Pérsico. E aproveita esse mesmo discurso para agitar o fantasma de uma guerra nuclear e manter quietos os casalinhos espojados no Malecón depois de mais um dia de trabalho árduo nos canaviais e antes do crónico jantar de sopa com frijoles. Velho Fidel no tempo da Guerra Fria!... E, voltando à 'vaca fria', a verdade é que, ainda hoje, nada como um 'inimigo externo' em condições para manter as massas coesas. Veja-se como os barões da 'Madeira nova' já andavam apreensivos com a perda do inimigo externo, o do tal garrote financeiro de tão bons resultados nas regionais de 2007. Ora, havendo eleições já para o ano, como mobilizar o eleitorado? Sem espiões para trocar ou presos políticos a libertar, felizmente, e já que nunca foi por via do ianque Bush, maçonaria ou trilateral que as urnas 'soltaram a franga', toca à teoria "em inimigo que perde não se mexe". Seja o atraso da reconstrução, seja o CINM, seja o diacho - toca a retomar os belos tempos em que Teixeira dos Santos era um troglodita anti-Madeira e Sócrates um 'borboleta' a merecer o punitivo 'fim dos afectos'. O caminho para as eleições de 2007 foi triunfal, com o garrote das Finanças em fundo. Patéticos raciocínios e maldições inebriavam o acendrado regionalismo da estrutura parasitária do regime, nos intervalos das suas broncas tranquibérnias. Bradava o chefe: O corte de dinheiros é um ataque fascista aos madeirenses! Se o problema sou eu, Lisboa que diga! Quem afasta a Madeira do todo nacional é o PS! Este é um ajuste de contas contra a Madeira! Sócrates é aldrabão e mentiroso! Os socialistas da Madeira são traidores! Não me vergo às canalhices políticas de Lisboa! ...E eis que a 'vaca fria' volta em força, prenhe de labéus anti-Sócrates. Reconstrução? Desemprego? Mais impostos? Pobreza? Dívidas? Vamos é a votos, ora adeus! Isto já deu o que tinha a dar, dirá o 'realista inveterado'. O doutor desistiu. Que o padre chegue a tempo da extrema-unção.
A volta da 'vaca fria'
À cabeceira do povo moribundo, o doutor desistiu de extirpar o velho abcesso