Estudos recentemente publicados dizem que apesar da profunda crise económica, a riqueza cresceu para os milionários. Em Portugal, existiriam 11 mil milionários, e no âmbito da crise, em 2009, surgiram mais 600 novos milionários. Parece mentira, mas a consultora francesa Capgemini e o banco de investimento norte-americano Merrill Lynch garantem no seu relatório sobre a riqueza mundial que o número de pessoas com grandes fortunas cresceu e entre aqueles que já tinham os cofres recheados há motivos para sorrir: o dinheiro estará a multiplicar-se. O número de pessoas com grandes fortunas aumentou mesmo 17,1% em 2009. Assim, no quadro da calamitosa crise económica, quem mais perde é quem menos tem. E os tempos de crise estão a revelar-se fabulosos para os mais ricos. De modo equiparado nos momentos mais trágicos de uma catástrofe natural habitualmente quem mais perde é quem menos tem. Assim foi na aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, como em cada uma das histórias mais antigas das catástrofes naturais na Madeira. Quem mais perdeu na vida e nos haveres foram aqueles que menos tinham e menos podiam, quer seja nas zonas de habitação ultraperiférica, quer nos lugares das micro e pequenas empresas. Mais de um bilião de euros estão orçamentados para as perspectivas da chamada reconstrução da Madeira. E na sequência do que aconteceu na catástrofe, na qual quem menos tinha mais perdeu, acontecerá, provavelmente, que quem mais perdeu, será quem menos irá receber. E à boleia da catástrofe determinados ricos da Madeira preparam-se para fazer fortuna maior. Na Madeira, depois da última catástrofe, logo a seguir à dimensão da destruição do dia 20 de Fevereiro de 2010, lamentavelmente não foram tomadas, da parte da governação, as necessárias medidas políticas de fundo para a prevenção do enriquecimento à custa da desgraça. Desde logo faltou a declaração da situação de calamidade pública. Teria implicado a requisição temporária de serviços, em nome do interesse público. Nos termos da Lei, a Região apenas estaria obrigada à "indemnização pelos eventuais prejuízos resultantes da requisição" (Lei nº 27/2006, de 03 de Julho). Pelo contrário, da parte da governação verificou-se um assumir de compromissos pouco claros, num ambiente de nublosa opacidade, com um restrito leque de empresas contratadas com a finalidade da recuperação das zonas de catástrofe. Por consequência, criaram-se mecanismos especulativos em nada compatíveis com a salvaguarda do interesse público. A magnitude da catástrofe por si só já suscitou um quadro de oportunidades extraordinárias para que alguns dos milionários da Madeira multipliquem o dinheiro. Se da parte da governação não foram tomadas decisões incisivas e inibidoras de determinados aproveitamentos indevidos e de maior enriquecimento associados e decorrentes da catástrofe, então, sem a prevenção do jogo especulativo, conjugam-se, insaciáveis à mesa do orçamento público, "a forme e a vontade de comer"… Se noutro contexto diz o ditado popular que "a ocasião faz o ladrão", a história tem sido pródiga em demonstrar que, tal como está a acontecer no meio da crise global do capitalismo, determinados milionários da Madeira têm na catástrofe de 20 de Fevereiro de 2010 uma ocasião fabulosa para que os seus cofres fiquem ainda mais recheados. No infortúnio de tantos alguns esfregam as mãos de contentes.
Edgar Silva