Lá diz o provérbio que a água bate na rocha mas quem se "lixa" é sempre o mexilhão. Significa esta expressão que nos momentos difíceis do País ou da Região são as famílias e algumas instituições que pagam a factura, quem mais sofre, ou melhor, quem se "lixa" é sempre o mais pequeno. Apesar dos discursos bonitos, com promessas de repartição equitativa das dificuldades, na hora do aperto, os mais frágeis são sempre engolidos pelos poderosos, pelos que têm capacidade de influenciar ou pelos que mandam. Vem esta introdução a propósito dos discursos que vimos assistindo nos últimos 2 anos por parte dos Governos da República e da Região relativamente às dificuldades económicas e financeiras que o País e a Região vêm enfrentando devido à crise mundial e as necessárias medidas de austeridade para equilibrar as finanças públicas. Os governantes têm afirmado até a exaustão que as dificuldades devem e irão ser repartidas de forma justa por todos os sectores da sociedade portuguesa e madeirense. Mas será isto verdade? Será que todos têm sido chamados a pagar a crise de forma justa e equitativa? O cidadão comum sabe que não é verdade, senão vejamos, só alguns exemplos: Há 600 mil desempregados no País e 15 mil na Região, muitos deles sem direito a subsídio; Há centenas de famílias na Região que não conseguem pagar o crédito à habitação devido também ao aumento dos juros e dos spreads; Há centenas de jovens licenciados que não conseguem o primeiro emprego; Há milhares de pensionistas e idosos com pensões abaixo do salário mínimo; Há idosos que não têm dinheiro para comprar os medicamentos; Há milhares de funcionários públicos sem progressão na carreira e salários congelados; Os docentes da Região não progridem na sua carreira profissional há 5 anos; Há milhares de agricultores que não conseguem retirar rendimentos do seu trabalho para pagar os custos de produção; Há centenas de utentes sem dinheiro para uma consulta de especialidade que o serviço regional de saúde lhes nega; Há largas dezenas de Sem Abrigo na cidade do Funchal; O ensino pré-escolar será pago a partir do próximo ano lectivo afectando ainda mais o orçamento das famílias. A somar a todas estas dificuldades, José Sócrates e Passos Coelho aprovaram o PEC, aumentando um conjunto de impostos, particularmente o IVA e o IRS. É verdade que na Região o Governo Regional, muito por pressão do MPT, não aumentou o IVA nos artigos de 1ª necessidade, mas já no que se refere ao IRS, vai aplicar as medidas nacionais através da aprovação do Orçamento Rectificativo cuja discussão se inicia hoje na ALM. Facilmente se depreende que é sempre o povo que paga a crise. Em contrapartida os tais poderosos, os que mandam e influenciam, nunca são clamados a contribuir, nomeadamente os gestores públicos com vencimentos que variam entre 1 e 3 milhões de euros mais prémios milionários; os conselheiros que acumulam elevadas reformas com salários milionários. Por outro lado, o mesmo Estado que espezinha o povo, perdoa 400 milhões de euros aos bancos em impostos fiscais, bancos que ganham diariamente 6 milhões de euros muito à custa das dificuldades das famílias, das empresas e instituições, através de elevados juros. Estes são só alguns exemplos do modo como os governos protegem os mais fortes em detrimento dos mais fracos. É por isso que aumenta o número de cidadãos que não acreditam na vida pública e nos políticos. O pior é que estas manifestações de desagrado penalizam aqueles que fazem política com seriedade.

João Isidoro