Como escrevi, logo após a catástrofe que se abateu sobre a Madeira em 20 de Fevereiro, antes mesmo de me aperceber das consequências e da sua real dimensão, o que só há duas semanas, durante uma curta estada no Funchal, me foi dado constatar, posso agora - como tal, com maior razão - afirmar quão importante e urgente é para a Madeira, o entendimento a todos os níveis, de soluções que numa perspectiva de futuro, sem ignorar erros passados, urge equacionar, bem intencionadamente, ouvindo e ponderando o pensar da generalidade dos Madeirenses. Situações existem na RAM, algumas vindas do passado e que requerem a atenção dos poderes públicos, para as quais em diferentes ocasiões tenho alertado, que na tal linha de pensamento e em resultado do '20 de Fevereiro', ganharam maior dimensão e acuidade, julgando ser oportuno recordar e alertar para determinados aspectos que não devem deixar de ser analisados pelos entendidos das várias especialidades, sem esquecer, normal e nomeadamente, os urbanistas. Nesta conformidade não pode deixar de tornar a levantar-se algumas questões relacionadas com a quase totalidade da frente-mar do Funchal, tão seriamente que foi afectada pela intempérie, com contornos anteriormente imprevisíveis, como é o do tão falado aterro dos inertes depositados a leste do cais da entrada do Funchal, que opto por destacar. Muitas têm sido as ideias avançadas sobre o destino a dar ao aterro, umas a favor da sua retirada e outras pela permanência, antes mesmo de ser levada a cabo a análise criteriosa, indispensável antes de decidir-se um qualquer arranjo urbanístico. A favor da permanência, foram avançadas ideias de criação de novos espaços de lazer e de restauração, enquanto outras vieram sugerir a criação de um novo cais acostável para navios de cruzeiro. Como está bem de ver, qualquer uma das alternativas é de condenar e seria a extinção definitiva do velho cais da cidade do Funchal, consumando a sua desfiguração, iniciada que foi em resultado da construção da marina na década de oitenta do século passado, uma questão quiçá controversa ultrapassada pelo tempo, embora se lamente. A construção de um novo cais para serviço de turismo de cruzeiros, necessário que possa ser para o desenvolvimento do turismo e desde que a sua exequibilidade seja tecnicamente comprovada, ao longo da praia para leste do cais, em caso algum deverá ser equacionada para uma zona aquém do Forte de São Tiago, não sendo demais recordar que importa preservar toda a área entre o Forte e a Pontinha, onde começou e se desenvolveu a primeira cidade europeia nascida no meio do Atlântico, já lá vão 500 anos, que integra a velha Fortaleza, hoje o emblemático Palácio de São Lourenço, cuja conversão num "grande espaço histórico-cultural … e na sala de visitas e de convívio das gentes da Madeira e de quantos a visitam" continua por desenvolver. Quanto à ideia de criação de novos espaços de lazer e restauração, é alternativa de rejeitar liminarmente, entendidas as razões para que, desde 2007, venho alertando e em conformidade propondo "a remoção definitiva dos estabelecimentos de restauração de gosto e qualidade mais que duvidosos". Para além do aterro, outras questões há, não menos importantes, ainda que possam ter um impacto menor, relacionadas directa ou indirectamente com o '20 de Fevereiro', na frente-mar e não só, mas que por uma questão de espaço, nomeadamente, só em próximas oportunidades poderei abordar, sob a mesma perspectiva de futuro e por entender que à Madeira e ao bem comum dizem respeito.

Francisco Leite Monteiro