Na senda das trapalhadas e dos equívocos que ao longo da carreira política tem criado ao País, muitas vezes com a Madeira na alhada, Cavaco Silva tornou a tropeçar em José Saramago. Se o Nobel tivesse publicado compêndios sobre regras simplificadas de Álgebra ou almanaques ilustrados com as cem maneiras de gerir uma mercearia de aldeia, o actual Presidente da República não criaria atritos com um português que nem sequer conheceu pessoalmente. Tratando-se de um intelectual, mestre da Língua e do livro, até na hora da morte a polémica se reacendeu.

Curioso é não se ter ainda apontado o real motivo que levou Cavaco a faltar às cerimónias fúnebres do escritor. O PR tem presente a bestialidade a que deu cobertura nos seus tempos de primeiro-ministro: permitiu que um subsecretário da Cultura, Sousa Lara, cortasse o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" da lista de títulos concorrentes ao Prémio Literário Europeu de 1992. Lara garantiu na altura que a sua decisão nada tinha a ver com as ideias comunistas de Saramago. Fizera censura, sim, porque a obra, na mente granítica do subsecretário 'mais papista do que o papa', atacava princípios dentro do património religioso dos portugueses, de tal forma que o livro, em lugar de unir, dividia o povo. Daí o quase exílio de Saramago em Lanzarote. E a crispação anti-cavaquista entre os admiradores do escritor.

O 'homem do leme' faltou às cerimónias não por uma questão de princípios ou por discordar da pontuação na 'Jangada de Pedra', mas para se furtar a uma previsível recepção antipática. O recandidato a PR não quer estar 'queimado' junto do eleitorado de esquerda, até porque, na direita, seu paraíso, rábulas grotescas como a que protagonizou no caso do 'casamento gay' têm deixado nódoas. Quais princípios! O seu problema chama-se Manuel Alegre - ou até Fernando Nobre. O homem precisa de votos para aplacar a obsessão de continuar em Belém. É isso que faz quando vem à Madeira: neutraliza o desgastante e incómodo Jardim, criador do 'sr. Silva', elogiando, mesmo contrariado, a qualidade 'superior' da democracia 'à jardineira', vulgarmente conhecida como ditadura. E quem cá vive que se amole. No balanço, a troca de elogios com o regedor local ajuda a consolidar 60% dos votos insulares em cada um deles, nas respectivas rodadas eleitorais.

Ambos padecem da gula do poder. Cavaco parece ter aprendido nas suas visitas à Madeira que se pode chamar os eleitores de burros porque os eleitores já perderam a paciência para sequer discutir ou contestar: votam e esperam que não os aborreçam. O PR chegou ao ponto de justificar a ausência na cerimónia de Saramago com a promessa feita aos netos de lhes mostrar S. Miguel durante as férias. Pena não ter feito idêntica promessa nas férias que interrompeu para incomodar o País com uma comunicação às oito da noite - porque os açorianos lhe estavam a carcomer poderes presidenciais!

É disso que se trata: 'poder'. 'Poder' até para proibir avionetas de evoluírem no espaço aéreo correspondente à sacra casa de férias de sua excelência, lá para os lados de Albufeira! O homem começou a gostar de mandar. Em tempos, só inventou o tabu para se esquivar da solene derrota que o eleitorado continental preparava à conhecida arrogância do cavaquistão.

Mais fácil tem sido ao amigo madeirense impingir-se no poder, embora os coelhos, em lista de espera na toca, o mantenham angustiado. Ainda esta semana, ao inaugurar mais uma vereda, deu largas à obstinação de mandar. Justificou o apego à cadeira com o 'nervosismo' que descobriu nos 'inimigos' depois de se ter mostrado disposto ao 'sacrifício' de mais quatro anos para dirigir a reconstrução. Tem razão. Há nervosismo. E esse 'nervosismo' não está justificado quando se percebe que o jardineirismo só será enterrado depois de levar a Região em derrapagem maluca até à bancarrota final?

Expelem viscosas golfadas de hosanas, afagados pelo prolongar do carunchoso regime, certos bonifrates serventuários, delatores pidescos, alvissareiros e louvaminheiros, periodiqueiros e quadrilheiros da tropa oficiosa. Esses adesivos do laranjal, pulhastras invertebrados e parasitas do erário que apeçonham o nome até de quantos escolheram o partido maioritário por honesta convicção política, serão por certo os primeiros a 'virar a casaca' no raiar da nova alvorada. Já o fizeram nos primórdios, tingindo a casaca de laranja quando garimparam o solo de onde brotariam os tachos. Só que, putrefactos espectros do passado a estrebuchar no pantanal do compadrio moribundo, nada mais conseguirão além de uns frouxos e tímidos saracoteios. Entretanto, até um dia, podem continuar tranquilos. O chefe, se verificar que os seus 'inimigos' deixam de manifestar o 'nervosismo' que lhe justifica o 'alapanço', tem discurso alternativo: 'Os comunas e os jornalistas andam quietos, mas não vou no jogo dos manhosos, só vou embora quando o povo quiser.'

O homem faz birra para não sair do parque de diversões agarrado à 'vaca sagrada' da reconstrução. Como se o povo ainda não fosse suficientemente "superior" para realinhar o simples curso de uma ribeira, segurar escarpas, dar destino aos aterros, projectar casas e até rectificar as loucas asneiras do regime que tem destroçado o ambiente e a economia em 30 anos de comezaina desenvolvimentista.

Na obsessão de abarbatar mais quatro anos no poleiro belenense, Cavaco continua a lançar poeira aos olhos do eleitorado. É um principiante. Na Madeira, o líder faz de povo. Ele vê, ouve, pensa e fala pelo povo. Ao bater o pé para se pavonear mais quatro anos com a chave das Angústias, diz que é o povo a bater o pé por ele. Ao falar em revisão constitucional (para pulverizar atenções), alega ser o povo que exige a revisão, apesar de o povo nunca ter querido saber do raio das competências legislativas que se diz ser tão urgente alargar. Ao apanhar os contra-ataques mais violentos do Continente, tenta transferir as pancadas para cima das costas do povo ilhéu, mau grado o povo se borrifar para as guerras exibicionistas do chefe. O povo sobrevive é alarmado com o drama do desemprego, da pobreza, apertos da banca, problemas na Saúde, hospital adiado, cortes nas farmácias e o endividamento regional monstruoso que esta geração deixará a escaldar nas mãos de filhos e netos.

O Chefe de Estado progrediu, é verdade, mas tem muito que aprender em matéria de cegueira induzida. O próprio patrão insular já ridicularizou a "nabice política" de Cavaco nos seus tempos de primeiro-ministro. Um dia, em território continental, deixou escapar: "Se eu tivesse a maioria absoluta e o dinheiro do dr. Cavaco, estaria no poder durante mais tempo do que Salazar. Era inaugurações todos os dias..."

Eis o amor à Madeira. Mandar, mandar, se possível mais tempo do que Salazar. Está quase lá. Nos regionais, claro. Mas atenção que a epidemia de cegueira é transponível. O povo já mostrou pela História acima que a Madeira não é terra de cegos - apesar de, mais do que uma vez, se ter deixado levar à certa por uns ciclopes de trazer por casa. Histórias com fim desagradável.

Luís Calisto