Conheci José Saramago ainda nos tempos em que ele era director literário da editora Estúdios Cor, que então editava Rodrigues Miguéis e Marmelo e Silva, entre outros escritores de primeira água e nem sempre muito mediáticos, que ele sempre soube escolher bem o trigo do joio! Porém, as nossas relações estreitaram-se, até à amizade, em Julho de 1975, quando o subdirector do Diário de Noticias, de Lisboa, me contratou para chefiar a Redacção desse jornal no Porto. Eram os gloriosos tempos do PREC, em que procurávamos consolidar os fundamentos da Revolução dos Cravos, experimentando um jornalismo em liberdade, comprometido com as classes trabalhadoras. É dessa época aquela primeira página, hoje histórica, da imagem inteira de uma manifestação de trabalhadores com a legenda-manchete: Que grande minoria! Assim se respondia à maioria dita silenciosa.
De saúde precária nos últimos tempos, José Saramago subitamente ocupa os noticiários com a sua morte. O cidadão exemplar - até na honradez das suas contradições! -, o escritor reconhecido - que soube pôr o Prémio Nobel ao serviço da causa dos trabalhadores -, o jornalista - sobretudo o agudo cronista - constituem um raro exemplo para os nossos tempos turvos. Num momento em que o vocábulo ética parece despojado de conteúdo, Saramago é uma bandeira legada pela sua geração à posteridade, uma bandeira que nunca deixou de estar desfraldada. Desfraldada nos nossos corações. Saibamos aguentá-la na eternidade dos valores da sua memória.
Com o romance 'Levantado do Chão', José Saramago rendeu homenagem justa e calorosa aos heróis alentejanos das Unidades colectivas de Produção. O seu contencioso com a Igreja Católica - transparente em 'O Evangelho segundo Jesus Cristo' e 'Caim' - fez reflectir o universo dos seus leitores. Aliás, Saramago nunca escreveu por escrever, sempre foi o cérebro, o músculo, o braço e a pedra, o próprio movimento, que exigimos a cada escritor. Os seus cadernos, o seu diário, os seus discursos na Suécia e nas universidades que o doutoraram revelam que ele nunca esqueceu quem é, de quem vem e que país é o seu. A sua morte biológica provoca lágrimas, mas o seu projecto de vida é imenso e vai além de tudo isto. Saramago, meus amigos, é um dos maiores portugueses de todos os tempos. Para Pilar del Rio e para Violante Saramago de Matos o meu abraço solidário.
Viale Moutinho