Falar de indústria é pouco frequente ou popular na Madeira, mas considerar as potencialidades das indústrias culturais e criativas (ICC) para a região não é no presente contexto uma opção obrigatória, tanto para decisores políticos como actores económicos de um pequeno território ultraperiférico? O Livro Verde da Comissão Europeia, intitulado "Realizar o potencial das indústrias culturais e criativas", datado de 27 de Abril de 2010, indica algumas pistas sobre esta matéria e relembra-nos um facto: as ICC já representam 2,6% do PIB da UE. E da Madeira?
Não é de agora que se encontram identificadas as várias dificuldades que afectam as tentativas de internacionalização dos projectos insulares ultraperiféricos. A Madeira e a sua estrutura e tradição empresarial, dominada por micro e pequenas empresas, vocacionadas fundamentalmente para a manutenção dos empregos e o pagamento de salários, tem parcos recursos alocáveis para formular e implementar estratégias de expansão convencionais. Contudo, sob a égide da crescente economia digital, da consequente virtualização dos serviços transaccionáveis, da abolição das distâncias e dos canais de distribuição físicos (em que não assenta na prática esta economia), permanecem intactas (ou não) as possibilidades que uma organização produtiva das indústrias culturais e das indústrias criativas tem para oferecer ao sistema económico local? Ao representarem em larga medida conteúdos transaccionáveis e aptos a alimentar os mercados de sustentação digital, em particular os denominados "mercados de experiências", as ICC estão em posição privilegiada para ultrapassar os constrangimentos tradicionais que surgem nos processos de internacionalização convencionais, sobretudo, por não implicarem a necessidade de deslocalizar a produção ou a construção física dos canais de distribuição. Apenas necessitam fazer fluir a matéria cultural e criativa, virtualizada, pelas redes e canais típicos, cada vez mais sociais, em que parte da economia digital se sustenta. Sobre as potencialidades das ICC regionais, a minha opinião/sugestão é: faça-se da indústria cultural e criativa regional, após devidamente organizada e estrategicamente orientada -em que as artes visuais (caso do artesanto, pintura, escultura e fotografia), as artes performativas (como o teatro, a dança ou festivais), o património (os museus, as livrarias, a arqueologia e o acervo documental), sem esquecer o "anel cultural" (decorrente do cinema, vídeo, televisão, rádio, jogos de vídeo, música, sector livreiro e editorial), bem como o "anel criativo" (formado por actividades que já têm projecção internacional, como o design e a arquitectura "Made in Madeira") são algumas das componentes a considerar- um contribuinte líquido da economia regional. No fundo, o desafio que as ICC regionais enfrentam não é fazer da actividade cultural e criativa uma mera ocupação complementar ou actividade localmente centrada, marginal ou paralela, por vezes altamente subsidiada, mas sim tentar ultrapassar o constrangimento da insularidade ultraperiférica, recorrendo às ligações virtuais banalizadas pela tecnologia, tendo em vista lutar e ocupar nem que seja uma ínfima nesga do mercado global dos bens/serviços culturais e criativos. Não é tempo de fazer da identidade uma matéria transaccionável, ou seja, da cultura um activo económico tangível? Compete aos decisores políticos ponderar e decidir, aos agentes associativos empresariais pronunciarem-se e à indústria cultural e criativa gerar massa crítica, organizar-se e disponibilizar-se para os desafios. O futuro urge!Ricardo Fabrício, Professor Universitário