António Ferreira A sensação que tive quando peguei pela primeira vez num texto de Saramago é indescritível. Era adolescente, imberbe e juvenil, e aquelas palavras incisivas aniquilaram o domínio que julgava ter na leitura. Quando lemos um livro do Emílio Salgari, Ferreira de Castro ou Virgílio Ferreira (os autores dos meus dezoito anos) sentimo-nos donos e senhores do texto, deixamo-nos levar pelas histórias que nos entretêm. Posso afirmar que O Ano da Morte de Ricardo Reis foi dos meus primeiros livros que acabou com a minha petulância literária. O texto remeteu-me a minha condição de ignaro, era tão poderoso e eloquente que me senti devastado. Quase uma década depois voltei a pegar no mesmo livro e a impressão foi radicalmente diferente. As leituras de Saramago sempre foram uma espécie de dissidência. No meu meio pessoal e familiar ninguém apreciava o Saramago, quer o homem, quer o escritor. O meu apreço por Saramago era tartamudeado e, mesmo assim, raramente. A figura de Saramago, no entanto, foi e será de uma importância esmagadora. Neste momento infeliz e enquanto lamentamos o seu falecimento, poderemos dizer que este homem foi uma das grandes figuras da nossa literatura. Só espero que esta homenagem sentida se perpetue porque Saramago bem merece.